Enquanto os de cima disputam e negociam o poder, os povos são marginalizados
A rejeição, pelo Senado Federal, do nome indicado pelo Presidente da República ao Supremo Tribunal Federal, bem como a derrubada de vetos à lei que trata da dosimetria das penas dos golpistas, não são apenas episódios da política institucional; são sinais graves do tempo presente. Revelam o enfraquecimento de um projeto que, ao se afastar dos mais pobres, torna-se refém de interesses que historicamente negam direitos humanos e promovem a exclusão.
Quando a política se orienta pela lógica da troca, da barganha e da submissão aos setores economicamente privilegiados, ela perde seu sentido mais profundo: a defesa da vida e da dignidade humana. E, quando os direitos fundamentais deixam de ocupar o centro das decisões, são as populações mais vulnerabilizadas que sofrem e pagam o preço mais alto.
A história já demonstrou que acordos com elites estimulam e aceleram ataques aos direitos, sem produzir estabilidade. Ao contrário: alimentam uma engrenagem insaciável, que exige concessões permanentes até que não reste espaço para o compromisso com o bem comum.
Embora grande parte da população não acompanhe os detalhes dessas disputas, seus efeitos chegam por meio de narrativas simplificadas. Estas reforçam a percepção de fragilidade do governo e abrem caminho para o avanço de forças contrárias aos direitos sociais, ambientais e territoriais.
O cenário político e eleitoral que se desenha é preocupante. O enfraquecimento dos compromissos com a justiça social e com os direitos constitucionais tende a favorecer projetos que aprofundam desigualdades, intensificam a violência e ampliam a exploração da terra e de seus recursos.
Nesse contexto, os povos indígenas, quilombolas e as demais comunidades tradicionais seguem entre os grupos mais ameaçados. Seus territórios continuam sob pressão, suas vidas em risco e seus direitos permanentemente questionados. A morosidade nos processos de demarcação e a omissão do Estado escancaram a gravidade deste momento histórico.
É preciso reafirmar, com firmeza e sem hesitação, que os direitos dos povos e comunidades tradicionais são originários, garantidos pela Constituição, e não podem ser reduzidos a moeda de troca em negociações políticas. Não haverá justiça social enquanto não houver respeito pleno aos territórios, às culturas e à autonomia dos povos.
Diante deste cenário, é urgente retomar o caminho do compromisso com a dignidade humana, com a “Casa Comum” e as perspectivas do Bem Viver.
É tempo de escutar o clamor dos que sofrem e de romper com práticas que alimentam a injustiça, buscando fortalecer uma política que esteja, de fato, a serviço da vida das pessoas, dos povos – em seus diferentes modos de ser – e do meio ambiente com sua biodiversidade.
01 de maio de 2026.
Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima.
Jornalista, militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP).
