Como analisar os resultados das eleições no Brasil?
Não há uma única leitura possível dos resultados eleitorais no Brasil. Mas há uma constatação que não pode ser ignorada: a política vem deixando de ser uma construção das coletividades para se transformar numa experiência individualizada, mediada pelas redes sociais, pelas bolhas digitais e pelos algoritmos que selecionam conteúdos, oferecem versões da realidade e, muitas vezes, orientam escolhas.
A expressiva votação recebida por candidaturas identificadas como de extrema direita, com discursos mal educados, bem como aqueles de intolerância, machismo, misoginia e outras formas de exclusão revela que parcelas significativas do eleitorado encontram nessas narrativas respostas para suas ambições, seus interesses e suas percepções de mundo. As pautas dos direitos humanos e sociais, do bem comum e da solidariedade parecem perder espaço diante de uma política cada vez mais marcada pela identificação individual e pela defesa de interesses particulares.
Esse ambiente favorece a relativização de direitos, o enfraquecimento dos compromissos coletivos e a ideia de que cada pessoa deve responder individualmente por sua própria sobrevivência. A terra e os bens comuns passam a ser vistos como mercadorias, os territórios como espaços disponíveis à apropriação e aqueles que resistem à lógica dominante como obstáculos a serem removidos. Nesse processo, povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores e pobres continuam entre os primeiros atingidos.
Ao mesmo tempo, ganham força discursos que relativizam a legalidade, atacam instituições, desqualificam adversários e transformam a política em confronto permanente. Nesse cenário, surgem e se fortalecem os chamados “mitos”, personagens políticos que passam a ser tratados como se estivessem acima das regras e dos limites impostos aos demais. Há uma tolerância preocupante em relação a eles: aquilo que seria considerado grave, intolerável ou incompatível com a vida pública, quando praticado por outros, passa a ser relativizado quando praticado pelo “mito”. A fidelidade ao personagem substitui a avaliação de seus atos, e a política passa a ser marcada mais pela devoção e pela identidade do que pela responsabilidade pública.
A verdade também passa a ser substituída por versões produzidas para confirmar convicções, enquanto as redes sociais aprofundam bolhas nas quais o diálogo dá lugar à intolerância. As eleições, nessa perspectiva, revelam uma disputa que vai além dos governos e dos parlamentos. Está em disputa o próprio significado de humanidade: que vidas importam, quem merece direitos, quem será ouvido, quem poderá permanecer em seus territórios e quem será reconhecido como parte da sociedade. Está em disputa, portanto, o projeto de sociedade que queremos construir amanhã.
Mas a história não se move apenas em uma direção. O ambiente de individualismo, desmobilização e silêncio que hoje parece ganhar força também compõe movimentos cíclicos da vida social e política. Há períodos em que os vínculos coletivos se enfraquecem e em que a solidariedade parece perder sua capacidade de mobilização. Isso, porém, não apaga as experiências acumuladas, as memórias, as organizações e as lutas que permanecem vivas, mesmo quando parecem recolhidas ou silenciadas.
É nesses lugares que permanece a esperança. Não uma esperança ingênua, mas aquela construída na resistência concreta das comunidades, dos povos e dos movimentos que seguem defendendo a vida, a terra, os territórios, os direitos e a dignidade humana. Há muitas mãos lançando sementes, muitas vezes sem visibilidade, sem reconhecimento e sem espaço nas grandes disputas das redes sociais. São mãos que trabalham nas comunidades, nos territórios, nas organizações populares, nas escolas, nas igrejas e nas lutas dos povos indígenas, das mulheres, dos trabalhadores e de tantos outros que não aceitam o ódio e a exclusão como destino.
As boas sementes não desaparecem porque os tempos são adversos, elas permanecem sob a terra, invisíveis, esperando condições para germinar; outras encontram caminhos entre as pedras.
Assim também são as lutas: podem atravessar períodos de silêncio e desmobilização, mas continuam carregando a memória e a força daqueles que vieram antes. E um novo ciclo poderá nascer dessas sementes e das muitas mãos que continuam lançando-as. Seus frutos serão resultado de muitas lutas, organizações, resistências e da reconstrução paciente dos vínculos humanos que o individualismo tenta romper.
Por fim, é preciso afirmar que a história não termina nas urnas. As eleições registram um momento da sociedade, mas não encerram os processos históricos. A história continua nas ruas, nos territórios, nas comunidades e na capacidade de organização e resistência daqueles que não aceitam a desumanização como projeto de sociedade.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
