EDITORIAL

A Fronte – Jornalismo das Gentes

Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu

Mário Quintana

São muitas e simultâneas as batalhas que travamos diariamente. Não poderia ser diferente – vivemos numa era que parece ser permeada por todo tipo de ódio, violência, preconceito, pelo racismo, pelo machismo, por assédios, por medos diversos, enfim, pelo enfraquecimento das ações coletivas e pelo avanço da individualização. Nesse cenário, lamentavelmente, torna-se difícil não sermos invadidas/os pelas desesperanças.

Porém, justamente num momento como esse, as transformações são urgentes. A reconquista de um mundo de entusiasmo exige determinação, e a deste coletivo de comunicação é a de ajudar no rompimento do medo e de fortalecer a esperança. Tal objetivo não se cumpre sem conflitos, dado o tipo violento de sociedade ao qual fomos lançadas/os. Por isso, é preciso afrontar as injustiças deste momento histórico, buscando mudanças de valores, justiça social e o reencantamento das pessoas pelos sonhos de um mundo que precisa ser melhor, que nos garanta uma vida boa e em paz. Confiamos no poder da coletividade e das lutas populares para o resgate da consciência de classe transformadora da sociedade explorada, excluída e lançada à própria sorte, pois é pela coletividade que uma vida justa há de triunfar. Essas são as razões e o caminho do A Fronte, inseridos na nossa visão de um Jornalismo das Gentes.

Assim, posicionamo-nos na fronte, na linha de frente das disputas por justiça social, juntas/os daquelas/es que mais sofrem com diversas opressões. Nosso nome “A Fronte” guarda um sentido que indica o lugar em que nos posicionamos nessa luta, mas também representa um comando e a nossa disposição: afrontar! Embora os ataques sofridos no Brasil, especialmente desde junho de 2013, depois, com o golpe de 2016 e, ainda, agravados pelas eleições de 2018, tenham nos abalado, eles não destruíram nossas almas. Não eliminaram, principalmente, as almas das pessoas que lutam e possuem uma história de atuação nos movimentos sociais na sua base de vida. Tantos golpes não foram capazes de nos aniquilar – no máximo, fizeram-nos retornar para nossas casas – e, de lá ou daqui, reerguemo-nos com mais força para lutar e resistir.

O A Fronte – Jornalismo das Gentes, tem a proposta de fazer um jornalismo popular e libertário de verdade e denunciar o que há de detestável na sociedade que nos cerca. Desse modo, expressamos nosso entendimento ao cobrarmos e pressionarmos o que consideramos correto. Para além disso, buscamos, diferenciando-nos do jornalismo popular aburguesado tão facilmente encontrado nas redes de comunicações ditas populares, uma comunicação que não pode se esquecer dos bons exemplos, das ações que constroem o bem viver. Por isso, também reportaremos aquilo de positivo que sobressai do mundo social.

Dessa forma, A Fronte é a resposta de muitas gentes para muitas gentes. Uma sociedade é marcada pela coexistência de pessoas com seus diversos modos de ser, e o desafio de viver em sociedade é o de conviver com todas elas e de tentar encontrar o bem nelas. Esse bem que buscamos não corresponde ao falso moralismo de quem se autointitula cidadã/o de bem, mas àquele bem que faz a transformação da sociedade, que promove o reencontro com a vida construída na coletividade, o bem que protege e muda existências, libertando-as para um convívio feliz. Essa utopia reflete nossos sonhos possíveis, alimentados pela arte de nos comunicarmos com os diversos mundos que nos cercam, mas, sobretudo, com o mundo real, onde estão e vivem as pessoas.

Compreendemos que o jornalismo se dá nas bases, a partir do contato direto com as gentes e organizações populares, das pautas fundamentais para a classe trabalhadora explorada. O A Fronte – Jornalismo das Gentes é produzido, editado e divulgado daqui de dentro, nos estúdios, salas e escritórios, mas ele vem impregnado com a poeira e a lama do chão das urbanidades e ruralidades que formam a sociedade contemporânea. Ele vem, também, marcado pelos ares, pelos ventos, pelos céus azuis e pelo aroma das flores dos caminhos e casas, transbordando poesias sobre campos e estradas, onde vivem as pessoas que fazem e nos dão o mundo realmente vivido.

É nesses lugares de vidas, de chãos amassados pelo tempo – por tempos, cujos ventos somam vidas e almas que por eles passaram – só lá, no mundo das pessoas que lutam pelo pão da vida, que encontramos o vigor necessário para afrontar o mundo das injustiças. Um Jornalismo das Gentes almeja tirar essas pessoas dos isolamentos forçados, indo com elas até lugares cheios de solidariedade, mais próximos do despojamento dos campos que da dureza das cidades. Nesse movimento nos conectamos com pessoas que habitam planícies e montanhas repletas de vidas, perfumadas das primaveras que nos faltam todos os anos – afinal, a lógica capitalista excludente segue empenhada em roubar nossas primaveras.

O A Fronte – Jornalismo das Gentes se dirige aos horizontes que nos escapam – os horizontes que nossas almas sondam para cruzar as quatro estações de um ano – rompendo todo tipo de silenciamentos e de invisibilidades provocados neste momento de abandono imposto pelo neoliberalismo. O A Fronte nasce para afrontar esse mundo de coisas e alimentar as pessoas com esperanças e sonhos! Nesses enfrentamentos, seremos um canal que trará informações de temas locais, regionais, nacionais e também internacionais – afinal de contas, somos de um lugar no mundo e esse processo acontecerá assim, devagar, bem no chão da base, no tempo da luta.

Nossa produção de conteúdo será própria, com foco principal no caráter formativo, educativo e libertador de tudo aquilo que fizermos. Não deixaremos também de compartilhar materiais produzidos por nossas/os companheiras/os. Consideramos mais importante a qualidade da informação e o aprofundamento dos temas do que uma grande quantidade de material publicada de forma superficial por meios que só copiam e colam. O imperativo de produção ininterrupta, ainda mais intensamente estimulado pelo capitalismo com as inovações tecnológicas, vai minando o espírito crítico e reflexivo na medida em que forma produtoras/es e consumidoras/es passivos. Nessa ânsia de produzir e publicar, em nome da competitividade, perde-se de vista questões que, para nós, são fundamentais: que tipo de relações estamos estimulando, que tipo de sociedade queremos construir? Qual relação com a informação estamos construindo junto às/aos leitoras/es e de quem nos ouve e assiste? Qual é o jornalismo que nos propomos a fazer e de que forma construímos o internacionalismo tão necessário?

Baseadas nessas questões, queremos que o nosso canal de notícias e informações, natural deste interior de tantas lutas em Santa Catarina e Sant’Ana do Livramento, conduzido por três mulheres militantes, traga a proximidade de que o povo precisa, sendo um instrumento de formação, de alinhamento da comum-ação ao trabalho de base. Acreditamos num jornalismo fiel à sua função social de assegurar o espaço para a denúncia das injustiças provocadas em nossa sociedade, bem como ao serviço de realizar articulações necessárias para a emancipação das pessoas exploradas e oprimidas, por meio de uma comunicação popular comprometida.

A unidade das três mulheres realizadoras deste projeto não se trata de uma associação para uma empreitada sem direção, como quem se junta a qualquer um/a por conveniência ou acaso. Nossa comunhão, como uma amálgama das dores provocadas pela estrutura machista da sociedade em que vivemos, fundamenta-se em nossas histórias de vida. Essa estrutura violenta que nos oprime, tristemente, afasta, adoece e mata a tantas companheiras. Porém, se é certo que as dores nos unem, mais fortemente ainda somam os nossos anseios de transformação, a tarefa é de esmiuçarmos essa estrutura machista e de lutarmos para transformá-la. Buscamos sensibilizar e instigar a quem nos acompanhe a respeito dessa luta, tão próxima da vida da gente, da Claudia Weinman, da Cláudia Baumgardt, da Julia Saggioratto, mas também com relação a muitas outras.

Essas mulheres que formam a base deste projeto comunicacional têm muito o que dizer: A Fronte de onde falamos diz não ao silêncio e, por isso, ao invés de sentarmos naquele cantinho úmido onde tentaram nos colocar, renascemos, como fênix, mesmo que ainda em um processo profundo de transições e mudanças, existe um novo que está se constituindo. Aos termos nossos corpos invadidos, sendo vítimas de violência sexual, moral, política, psicológica, atacadas em nossa propriedade intelectual e em outras tantas situações que poderiam ser denominadas, a decisão de mexer com a estrutura patriarcal, machista, racista, violenta desta sociedade, nos coloca na posição que ocupa ainda mais espaço na marginalidade dos dias e do tempo, porém, este é o direcionamento e a opção de classe que fizemos.

Falamos e falaremos desde estas fronteiras em que vivemos, próximas inclusive da fronteira real do rio Peperi-Guaçu, tão marcante na formação territorial sulista, quanto brasileira e sul-americana, ou até mesmo no próprio Ocidente. Falamos daqui, onde os territórios são marcados pelas relações de poder e soberania – quase sempre, tirando a soberania do direito de viver das pessoas.

Mas, esta fronteira real é impregnada de assuntos que se estendem para além da questão político-administrativa, pois a fronteira não é apenas o limite físico ou político desprovido de sujeitos e relações. Ela também é composta de práticas sociais, existências e coexistências, ações políticas a partir do Estado e dos movimentos sociais, e tudo isso se conecta às redes que nos são fundamentais para as interpretações da vida no mundo.

As questões socioambientais em escalas intranacionais também são objeto de reflexões urgentes e necessárias, desde as que envolvem os povos originários, passando pelos povos tradicionais até o todo da sociedade contemporânea. Embora as mudanças econômicas e políticas redesenhem o mapa do mundo, com expansões e reduções territoriais, elas não desmancham as relações sociais, não dando conta de impedir que as pessoas se movimentem. Ao se movimentarem em rede, por meio dos movimentos sociais, traçam seus próprios caminhos de liberdade neste mundo encarcerador. As pessoas circulam e vivem, elas chegaram antes da formação política do mundo em que vivemos, cheio de cercas, muros, limites e divisões materiais e simbólicas. Assim, as pessoas são verdadeiramente livres quando as fronteiras que as oprimem são desfeitas, quando elas podem circular e viver em liberdade para agir e construir no mundo, fazendo-se cidadãs do mundo.

Em certo sentido, as práticas sociais são caracterizadas por limites e fronteiras, muitas das quais são mais abstratas do que reais. Contudo, ainda que abstratas, elas podem estimular nossas reflexões sobre as distâncias e as separações e, a partir disso, fomentar a edificação de pontes de comunicação, rompendo todas as fronteiras simbólicas e materiais na construção de um mundo libertário para todos os seres e povos.

Precisamos romper, por meio do Jornalismo das Gentes e de outras tantas forças populares, com o mundo da responsabilidade individual, das fronteiras impenetráveis, e partirmos para a responsabilidade gestada na coletividade. É urgente reumanizar o mundo, lançando as pessoas no centro do debate que as recorde de que fazem parte de um todo, diminuindo o individualismo e recriando um coletivismo real e transformador!

Devemos caminhar lado a lado, com olhares que se entrecruzam no afrontamento contra todas as injustiças, acreditando que a consciência de classe é um dos caminhos possíveis e fundamentais para a revolução que busca o encontro do mundo da felicidade para todas as pessoas. Ora perto, ora distante, o A Fronte – Jornalismo das Gentes, vai ver, vai viver e vai sentir os aconteceres que regem a vida neste mundo da globalização perversa, apontando os caminhos possíveis para o mundo da felicidade.

É momento de avançar, recomeçar e dizer ao nosso povo que contem com a gente.

Seguiremos por este sertão catarinense contestado, unindo a fronteira argentina, uruguaia e brasileira, onde nos encontramos com o jornalismo comunitário, independente, popular e internacionalista, desde os acampamentos, assentamentos de toda gente sem-terra, sem teto, com as juventudes, a partir da roça e da favela, reportando as lutas dos povos e caminhando por essas estradinhas cheias de pedras e flores escondidas por todo Brasil e fora dele também.

Por aqui, feito sementes pequenas que somos, nos encontramos em luta para que o machismo não siga matando, prevalecendo, afastando, determinando processos. Nós estamos sonhando ainda mais, resistindo e avançando para que uma sociedade justa de verdade seja sempre nosso horizonte. Que nenhum povo seja calado, que nenhuma mulher seja silenciada e agredida, que a diversidade seja respeitada, amada e ouvida em sua realidade.


Nosso projeto conta com muitas gentes e o editorial especialmente, tem, além das nossas palavras, as do Nilson Cesar Fraga – Geógrafo, pesquisador da Guerra do Contestado – Londrina/PR, do Carlos Weinman – Professor de Filosofia, de São Miguel do Oeste/SC, do Guilherme Sant’Anna –Psicólogo, mestre em Psicologia Social – Rio de Janeiro. Também carrega as experiências do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular e Rural, especialmente da assessora Jô Pinheiro, no Extremo-oeste catarinense, o abraço fraterno da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (Apafec) de Fraiburgo/SC, aqui representada pelo Educador Popular Jilson Carlos Souza, e os sonhos de povos que não se calam. Vestir o editorial com palavras de um projeto que está nascendo não foi um processo fácil, mas, ao final, ou, ao começo de tudo, refletiu-se em carinhos descritos nos parágrafos subsequentes e que nos movem, ampliam a nossa vontade de tocar em frente essa vidinha nossa.

“Minha contribuição para vocês, espero que possa inspirá-las. Desde Londrina, no norte vermelho da terra roxa, tão roxa quanto a da fronteira Oeste do Contestado catarinense, em 14 de fevereiro de 2022, com os olhos observando o céu azul, neste quase final de verão sem nuvens e sem chuvas, quando olhar para o horizonte ao Sul e, depois de cruzar tantos rios reais e imaginários, vejo sem ver tudo o que constroem aí, pois sei que lá, em São Miguel do Oeste, há três meninas que sonham com um mundo melhor”! (Nilson Cesar Fraga – Geógrafo, pesquisador da Guerra do Contestado – Londrina/PR).

 

“Junto minhas mãos ao trabalho de vocês não só nas contribuições com o texto, mas buscando somar forças para os afrontes que virão. Que o A Fronte incomode as/os poderosas/os, inquiete as/os desatentas/os e, sobretudo, defenda as/os oprimidas/os. Embora distantes geograficamente, sinto-as próximas no empenho por um mundo melhor”. (Guilherme Sant’Anna –Psicólogo, mestre em Psicologia Social – Rio de Janeiro).