A HISTÓRIA TEM MONUMENTOS: OS POVOS INDÍGENAS TÊM BARRACOS: A CONTRADIÇÃO DOS 400 ANOS DAS MISSÕES GUARANÍTICAS
Enquanto o Estado celebra quatro séculos de história missioneira, famílias indígenas seguem desterritorializadas, vivendo em condições precárias e lutando pelo direito à terra, à moradia e à dignidade.
Há uma contradição profunda no modo como a história dos povos indígenas é tratada no Rio Grande do Sul. Enquanto o Estado celebra, com entusiasmo e solenidade, os 400 anos das Missões Guaraníticas, exaltando monumentos, construções, patrimônio arquitetônico e memória histórica, os povos indígenas, sujeitos fundamentais dessa história, continuam vivendo à margem do reconhecimento, das políticas públicas e da garantia de seus direitos.
Celebram-se as Missões, mas os Guarani de hoje continuam sem terra, sem moradia digna, sem saneamento básico e, muitas vezes, sem acesso regular à água potável. Os monumentos são preservados, os roteiros históricos recebem investimentos e as solenidades mobilizam autoridades, mas muitas famílias indígenas seguem abrigadas em barracos improvisados, às margens de rodovias, em pequenas áreas urbanas ou em territórios insuficientes para assegurar a continuidade de suas formas próprias de vida. A história é exaltada, mas seus sujeitos permanecem invisibilizados. Não basta celebrar a memória dos Guarani de ontem enquanto se negam os direitos dos Guarani de hoje.
Essa contradição não se restringe às comunidades Mbya Guarani. Também atinge profundamente os povos Kaingang, Xokleng e Charrua, cujas famílias enfrentam processos de desterritorialização, disputas pela recuperação de suas terras e condições extremamente precárias de sobrevivência. Em diferentes regiões do Rio Grande do Sul, comunidades indígenas são obrigadas a permanecer em espaços reduzidos, sem segurança territorial, infraestrutura e condições adequadas de habitação. Muitas vivem entre rodovias, áreas urbanas e pequenos fragmentos de território, submetidas a uma existência marcada pela insegurança e pelo improviso.
DESTERRITORIALIZAÇÃO

A desterritorialização não significa apenas a perda da terra. Significa a desestruturação de modos de vida, o rompimento de vínculos com os lugares de memória e espiritualidade, a restrição da autonomia alimentar e a dificuldade de transmitir conhecimentos e práticas culturais às novas gerações. Quando um povo é impedido de viver em seu território, toda a sua existência é afetada. A falta de terra repercute na moradia, na alimentação, na saúde, na educação, na espiritualidade e na possibilidade de construir um futuro com dignidade.
O que se vê em muitas dessas comunidades é profundamente doloroso. Famílias inteiras vivem em barracos improvisados, sem proteção adequada contra o frio, o calor, as chuvas e os ventos. Faltam instalações sanitárias, água em quantidade e qualidade suficientes, energia elétrica e espaços apropriados para as crianças brincarem e crescerem com segurança. Idosos, mulheres, crianças e pessoas enfermas enfrentam cotidianamente os efeitos dessa precariedade. Não se trata de uma situação passageira, mas de uma realidade prolongada, produzida pela negação de direitos e pela demora do poder público em assumir suas responsabilidades.
A crise climática, causada pelas mãos humanas e pela ganância, torna ainda mais dramática essa situação. Chuvas intensas, temporais, vendavais e inundações atingem comunidades que já não dispõem de estruturas mínimas de proteção. Para famílias que vivem em moradias improvisadas, um evento climático pode significar a destruição do pouco que conseguiram reunir: barracos destelhados, roupas molhadas, alimentos perdidos e crianças expostas às intempéries. A emergência climática não produz desigualdades por si só, mas aprofunda aquelas que já existem. Seus efeitos recaem com maior intensidade sobre quem foi historicamente privado de terra, moradia e proteção.
Há também uma violência que se manifesta na indiferença, no preconceito e na ausência de solidariedade. A presença indígena em áreas urbanas e nas margens das rodovias frequentemente é tratada como problema, incômodo ou ameaça, quando deveria ser reconhecida como expressão de direitos históricos e constitucionais. Em vez de acolhimento e políticas públicas, muitas comunidades encontram discriminação, resistência e questionamentos sobre sua própria existência. Essa postura revela o quanto o racismo e a colonialidade ainda atravessam as relações sociais e institucionais.

A morte de Iasmin Gonçalves, jovem Mbya Guarani de apenas 18 anos, que foi atropelada na noite de 29 de outubro de 2026, na BR-116, em Passo Grande, no município de Barra do Ribeiro (RS), expressa de maneira dolorosa os riscos impostos às famílias que vivem às margens das rodovias. Sua morte não pode ser reduzida a uma fatalidade isolada. Ela nos convoca a refletir sobre as condições de insegurança e desproteção a que estão submetidas comunidades que não dispõem de território adequado, mobilidade segura e infraestrutura. Quando famílias são obrigadas a viver e circular em ambientes de risco, a ausência de políticas públicas também se torna uma questão de proteção da vida.
Apesar de tantas adversidades, os povos não deixam de cultivar a esperança e de construir alternativas. Plantam suas roças, criam pequenos açudes, recuperam sementes, cuidam das águas, preservam suas línguas e espiritualidades e fortalecem suas formas próprias de organização. As retomadas e a permanência nos territórios são expressões de resistência, mas também de afirmação da vida. Mesmo onde há pouco espaço, a terra continua sendo cultivada; mesmo onde falta quase tudo, as comunidades seguem produzindo alimentos, cuidando das crianças e transmitindo conhecimentos ancestrais.
Essa capacidade de resistência, entretanto, não pode ser utilizada para justificar a omissão do Estado. Os povos indígenas não podem ser condenados a sobreviver apenas por meio da própria força, da solidariedade de organizações e de iniciativas emergenciais.
Não pedem favores nem privilégios. Exigem o cumprimento de direitos assegurados pela Constituição Federal, especialmente o reconhecimento e a proteção de seus territórios, além do acesso à saúde, à educação, à moradia, à água potável, ao saneamento básico e às condições necessárias para viver com dignidade.

É preciso que os órgãos públicos abandonem a lógica das respostas fragmentadas, das promessas e dos adiamentos. A demora nos procedimentos de regularização territorial, a insuficiência das políticas habitacionais e a ausência de medidas permanentes de proteção expõem as comunidades a sofrimentos que poderiam e deveriam ser evitados. A urgência da vida não pode continuar submetida à lentidão dos processos administrativos e à falta de compromisso institucional.
A missão pastoral e profética e nosso compromisso ético e moral nos chamam a permanecer ao lado desses povos, a escutar suas dores, a reconhecer sua dignidade e a denunciar as injustiças que lhes são impostas. Não basta visitar comunidades, registrar necessidades e prestar solidariedade. É preciso transformar a indignação em compromisso, a escuta em ação e a esperança em luta por direitos. É preciso reconhecer que cada família que vive em um barraco, cada criança que cresce sem condições adequadas e cada comunidade impedida de viver em seu território representam uma interpelação à consciência da sociedade e das instituições públicas.
A história das Missões não pode ser celebrada como uma memória distante, separada dos povos que lhe deram vida. A verdadeira homenagem aos Guarani não está apenas na preservação dos monumentos, mas no reconhecimento de sua existência contemporânea, de seus territórios, de sua cultura e de seus direitos. A celebração histórica precisa produzir justiça no presente.
Os povos têm memória, espiritualidade, dignidade e projetos de futuro. Não podem continuar vivendo às margens enquanto seu passado é celebrado sobre as ruínas. Os povos não podem esperar indefinidamente por aquilo que lhes é devido: a terra que é Mãe, as águas que os banham e alimentam, as matas que são vínculos com as ancestralidades.
Porto Alegre (RS), 7 de novembro de 2026.
Roberto Liebgott
Cimi Sul, Equipe de Porto Alegre.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
