Paraná: Xetá fazem retomada 70 anos após massacre e quase extinção de seu povo
Por Claudia Weinman, com entrevistas de Osmarina de Oliveira e Clovis Antonio Brighenti.
Pela primeira vez na história, a aliança entre os Xetá lança resistência sobre o massacre de 1840, colocando em evidência as memórias resguardadas ao entorno do médio rio Ivaí
Considerados extintos pelo governo brasileiro na década de 1980, em razão da violência extrema a qual foram submetidos, o povo Xetá reúne a resistência de mais de setenta anos em luta, ao iniciar uma retomada em defesa do seu direito à vida. Em 6 de janeiro deste ano, o território ao norte do Paraná foi ocupado por 42 famílias no distrito de Terra Nova, município de São Jerônimo da Serra. Essa é uma área pertencente a um particular daquele município.
Os Xetá reivindicam, com essa retomada, a conclusão da demarcação da Terra Indígena Herarekã Xetá, pela regularização fundiária de parcela de seu território tradicional, sendo esse, um processo iniciado pela Funai em 1999 e até hoje, inconclusivo, devido a utilização do marco temporal por parte da Justiça Federal do Paraná, numa ação movida pela Agropecuária Santa Maria, contra a regularização da TI. A retomada é também, uma homenagem aos ancestrais que, ao encantarem, levaram consigo, o sonho da terra sagrada.
Também denunciam a morosidade da Funai em não efetivar a demarcação e a omissão do governo do estado do Paraná, que faz vistas grossas, como se não tivesse responsabilidade pelo esbulho da terra desse povo. É urgente a devolução da terra e a reparação histórica para os Xetá, que continuam no exílio e vivendo separados. Que a reparação começe pelo reconhecimento da terra retomada.
MASSACRE
A invasão ao território desse povo pode ser conhecida a partir de uma cronologia construída pelo Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul (Cimi Sul) e a Universidade Federal da Integração Latino Americana – Unila, assinada por Osmarina de Oliveira, Clovis Antonio Brighenti, Diego Giuseppe Pelizzari, Paulo Caldas Ribeiro Ramon e Rafael Pacheco, a qual aponta que o “território original do povo Xetá se localizava na bacia do rio Ivaí próximo à sua foz, na região conhecida como Serra dos Dourados, no noroeste paranaense. Sua história foi registrada por exploradores contratados pelos governos provincial e imperial desde a década de 1840, quando expedições viabilizadas pelo Barão de Antonina fizeram contato com alguns grupos no médio rio Ivaí. Desde então, tem-se notícias, relatos, descrições e informações oficiais do governo do Paraná e do governo brasileiro sobre esse povo”.

Esse foi um território invadido, violentado de todas as formas, ainda mais no final da década de 1940 com a expansão do café, “quando o governo do estado do Paraná repassou a terra Xetá às empresas de colonização, primeiro para a Suemitsu Miyamura & Cia. Ltda e retirando posteriormente da Suemitsu Miyamura & Cia. Ltda e repassando a terra para Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (COBRIMCO), pertencente ao grupo Bradesco, um dos maiores bancos privados do país”, mostra a cronologia.
Do massacre, restaram oito crianças Xetá, as quais, segundo Osmarina de Oliveira, que é missionária do Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul (Cimi Sul), foram levadas para diferentes terras no Paraná. Uma dessas crianças foi Tikuen, pai do cacique que hoje assume o processo de retomada.
“Tikuen foi levado pelo chefe de posto Dival de Souza do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), para a terra indígena do povo kaingang Barão de Antonina, e posteriormente passou viver na TI São Jerônimo, município de São Jerônimo da Serra, onde seus remanescentes permaneceram até hoje”, diz Osmarina.

SIMBOLISMO
Foi nesse território de São Jerônimo que Tikuen viveu, o pai de Júlio Cesar da Silva, o cacique que hoje, setenta anos após os episódios de violências e perseguições, assume a retomada Xetá junto do seu povo.
“Essa é uma homenagem ao meu pai que faleceu e não conseguiu conquistar a terra que tanto buscou depois das invasões”, disse Júlio.
Tanto tempo de espera por respostas sobre a demarcação da Terra Indígena Herarekã Xetá, motivou a luta que reorganizou o povo Xetá, por terra, justiça e dignidade. “Vivemos muito tempo em territórios emprestados por outros parentes. Nosso povo viveu separado, espalhado, no Paraná (Curitiba), em Santa Catarina (Chapecó) e outros locais. Porém, mesmo separados, seguimos lutando, seja encaminhando documentação, resistindo nos territórios, mas sempre existindo”.
Como escrito no início desta reportagem, a década de 1980 é marcada pelo pensamento de apagamento do povo Xetá e estes, foram considerados extintos pelo governo brasileiro, mas a cronologia conduzida pelo Cimi Sul e Unila é fundamental, ao mostrar pesquisas e feitos que trouxeram à tona a presença dos Xetá, até mesmo pelo “desenvolvimento do Projeto Memória Indígena do Paraná, através da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná em convênio com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). O material obtido nas pesquisas durante a década de 1980 através da articulação de pesquisadores com os remanescentes Xetá foi sistematizado e publicado no ano de 1989”.
A partir disso e de outro elemento decisivo, que é o reencontro dos Xetá com o seu povo, a história e a demarcação de existência, vida, presença no Sul Brasileiro, reaparece publicamente. Em 1985 depois de uma tragédia, os Xetá se reencontram e percebem que são muitos, espalhados e que não estavam sozinhos, bem como conta o irmão de Júlio, filho de Tikuen, Claudemir da Silva.
“Na época que nosso povo foi expulso, cada um foi levado para um canto, e ninguém sabia ao certo onde estavam. Passamos a maior parte da vida andando por terras indígenas, junto dos parentes guarani, kaingang. Muitos dos nossos foram assassinados, mulheres estupradas, pessoas envenenadas. Colocaram os indígenas dentro de um caminhão, como se fossem criação. Tanto que o povo Xetá demorou mais de quarenta anos para se encontrar”, disse ele.
A PRIMEIRA GRANDE RETOMADA: “DAQUI NÃO VAMOS SAIR, A NÃO SER QUE MATEM A TODOS”

As palavras de Claudemir são fortes e precisas, mostrando que não haverá caminho reverso, pois o que guia a esperança é a luta, a possibilidade de finalmente, conquistar a terra sagrada. “Somos indígenas, temos direitos e queremos aproveitar mais a nossa cultura, conversando mais com nossos parentes Xetá. É a primeira vez que acontece uma retomada assim, vamos até o fim. Daqui não vamos sair, a não ser que matem a todos”.
Seu irmão, o cacique Júlio Cesar da Silva, celebra o momento em que pela primeira vez na história, a aliança entre os Xetá lança resistência sobre o massacre de 1840, colocando em evidência as memórias resguardadas ao entorno do médio rio Ivaí.
“Nunca tivemos um espaço para dizer que é da gente”, falou Júlio indignado.
É essa geração, que reúne filhos de Tikuen, netos/as, sobrinhos/as, que está demarcando um território Xetá. “Isso é forte, emocionante, vivemos anos tentando buscar espaço para ter autonomia, exercer a cultura, trabalhar o artesanato. Aqui pretendemos estabelecer o território Xetá, e não vamos arredar o pé”, acrescentou Júlio.
REIVINDICAÇÕES

Na carta do povo Xetá às autoridades públicas, assinada em 7 de janeiro de 2026, está evidenciada a indignação das lideranças frente a perpetuação da violência sobre o seu povo, bem como o cenário que levou a um “quase desaparecimento”, e sim, “quase”, porque os sobreviventes, separados, constituíram famílias no Sul do país, vindo a se encontrar apenas 40 anos após o massacre.
“Hoje, somos um povo sem terra e desagregado, vivendo longe de nosso território e vítimas do descaso público, que acentua um quadro de vulnerabilidade social de nossas comunidades, que já é agudo. A negação de nossos direitos, principalmente a inconclusão do processo demarcatório, traz muitos prejuízos ao nosso povo. Estamos impedidos de exercer nosso modo de vida e de ter autonomia, e a cada dia nossa cultura está mais ameaçada, devido à nossa separação forçada e a morte de nossos líderes mais velhos, que foram arrancados da terra e de suas famílias quando ainda crianças. Tal postura é genocida”, mencionam.
No documento, os Xetá ainda colocam a responsabilidade no estado brasileiro, para que este, evite ainda mais violências e conflitos. Por isso, desde a retomada, as lideranças reivindicam atendimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, estabelecimento da energia elétrica, considerando inclusive que alguns indígenas fazem uso de insulina e crianças recebem leite, ambos precisam de armazenamento seguro. Além disso, Júlio menciona questões relacionadas à educação escolar indígena, destacando a necessidade de estrutura para os anos iniciais e a prioridade que os Xetá expõem no ensinamento da língua materna dentro do território.

MARCO TEMPORAL

Para além das demandas urgentes, o cacique reitera que o povo Xetá enfrentou ao longo desses setenta anos, inúmeras violências, separações e perseguições e que neste momento, lutam para assegurar direitos que foram violados, sendo esse, um povo vítima das mais aterrorizantes práticas legitimadas hoje, por meio da lei do Marco Temporal.
“É lamentável ter que fazer uma fala dessas, mas nos direcionamos aos juízes, deputados e demais autoridades: quem reconhece o marco temporal só pode ter um coração de pedra ao fazer vistas grossas sobre a nossa história e existência no território brasileiro. Eles falam que para ser reconhecido como indígena teria que estar em cima da terra, mas e o nosso povo, que foi expulso? Eram mais de três mil e seiscentas pessoas na época, e sofreram com o desmatamento feito para plantar café. Perdemos muito, perdemos crianças no massacre, indígenas retirados à força. Como provar que fomos retirados à força? ”, questionou.
Uma das violências a que os Xetá foram submetidos foi a quase extinção da língua materna. “Só não foi perdida porque os nossos velhos guardaram na memória e, conforme fomos crescendo em número de famílias, os guardiões repassavam. Meu pai, para impedir que o dialeto se perdesse com o tempo, ele conversava com a sua própria imagem projetada no espelho. Ele ensinou os filhos, e a gente também foi ensinando, mas em outros territórios, muitos não sabem a língua materna porque não tinha quem ensinasse”, contou.
Os ensinamentos sobre os remédios medicinais, o artesanato, também estão no limbo da resistência Xetá.
“Cada filho sobrevivente deixou um legado e assim vamos resistindo, tentando fazer de tudo para manter. A nossa retomada é para manter a nossa cultura, o nosso cântico. Nós somos um povo que se refaz, ainda não temos condições de trazer todo mundo para perto, mas estamos lutando do jeito que conseguimos”, reafirmou.
“O ESTADO DO PARANÁ É O GRANDE ATOR NO GENOCÍDIO DO POVO XETÁ”
A extrema violência que o povo Xetá enfrentou no período de expulsão é ainda marcante, especialmente quando o estado brasileiro se mostra omisso frente a demarcação das terras e imprimindo leis que ampliam o genocídio e perseguição aos sobreviventes. Essa reflexão é listada por Osmarina de Oliveira, que observa a questão Xetá com preocupação. “Sabemos que o Estado do Paraná é o grande ator no genocídio do povo Xetá, pois concederam o território desse povo na época da invasão, para uma colonizadora japonesa e depois, o próprio estado retirou e entregou para o Bradesco (banco) fazer a colonização”.
Osmarina encerra dizendo que o CIMI apoia a luta, a retomada que nesse momento se concretiza.
“É muito importante ocupar uma terra onde possam viver enquanto povo. A luta do povo Xetá está envolvida por violências que esse povo sofreu e continua sofrendo com a ação e omissão do estado brasileiro. Estamos juntos e juntas, acompanhando e auxiliando”, finalizou.
Jornalista, militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP).
