Inaiê e o Leviatã Invertido

Claudia Weinman
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Durante a viagem, Inaiê encostou o Fusca no acostamento. Mandou Roni descer com ela e começou a andar sem dizer muito, como quem precisa gastar uma energia que não faz ideia de onde veio. O dia estava claro, comum demais para justificar qualquer inquietação.

Foi o corpo que percebeu primeiro. As mãos começaram a tremer. O peito apertou de repente. Um medo sem endereço, sem rosto, desses que não avisam, apenas ocupam. A rua perdeu a naturalidade. Os rostos que passavam já não pareciam apenas rostos: eram sinais. Olhavam demais! Passavam perto demais! Cada um parecia carregar algo oculto.

Roni demorou a entender que não era apenas cansaço. Chamou a tia duas, três vezes. Ao vê-la assim, o medo a que não dava nome passou também para ele. Não era exatamente desespero, mas um tipo de desnorteio. Aquela sensação amarga de não saber o que fazer com o outro.

Roni, num passo apressado, tropeçou e caiu numa poça. A lama espirrou na barra da calça de um desconhecido, que reagiu com um grito seco, apontando o dedo na direção de Inaiê. Roni tentou se justificar, pediu desculpa, mas o corpo não obedeceu. Ficou parado, com a lama escorrendo por toda a roupa.

Tudo parecia ligeiramente turvo para Inaiê, como se fosse visto por um vidro empenado, uma miragem com muitas distorções. Não era exatamente a realidade, era apenas o reflexo de algo que já vinha deformado. As pessoas não apareciam como eram, mas como ameaças em potencial. O mundo havia perdido a neutralidade.

Ela sabia que precisava voltar ao carro. O Fusca amarelo continuava lá, exposto demais para aquela estrada cheia de curvas e buracos. Esses eram reais, e outros, que simplesmente apareciam, abriram-se dentro dela. Pensar em Roni, no entanto, parecia distante. Sua força de existir estava rarefeita, enfraquecida, como se a capacidade de agir tivesse sido drenada, uma diminuição silenciosa daquilo que filósofos, como Espinosa, insistem em chamar de potência, vontade de viver. De repente, Roni gritou:

Tia, andar pela rodovia, descalça e sem rumo, com o Fusca parado no acostamento, além de perigoso, é loucura. Assim como ficar esperando, se acomodar na vida e achar que tudo vai melhorar sozinho. Porque, quando a gente menos espera, a morte bate à porta, sem dó. É o começo do fim, e a gente nunca sabe o quanto ainda falta dessa viagem.

Nesse estado em que estava Inaiê, a interioridade e a exterioridade se misturavam e, ao mesmo tempo, sufocavam. O que vinha de si atravessava o mundo, dando a sensação de receber de volta tudo como se fossem navalhas prontas para cortar a existência, quem sabe até romper a alma do corpo. A rua deixou de ser espaço de encontro e assumiu a forma de um julgamento contínuo. Ninguém dizia nada, mas todos pareciam vigiar.

Foi quando surgiu Neófilo. Um sujeito estranho não por excesso, mas por diferença. Não se encaixava em nada que Inaiê reconhecesse. Talvez fosse isso. Em situações como essa, o diverso não amplia, mas ameaça. Ele não precisava fazer nada. Bastava estar ali, fora das imagens prontas, para concentrar todo o temor disperso.

Neófilo aproximou-se devagar, falou algo que Inaiê não conseguiu ouvir direito. Quando segurou seus braços, tentando contê-la, o gesto se tornou definitivo. O medo ganhou força, vida, fazendo com que ela gritasse alto à medida que se debatia. Para ela, aquilo já não era ajuda, mas sim ataque. A tentativa de cuidado transformou-se, em sua percepção, numa violência intolerável.

O mundo inteiro parecia ser uma voz de intolerância, de não suportar. Para piorar, quando Neófilo levantou a mão, talvez apenas para se explicar, algo se rompeu com força, com teor de crueldade, como uma ameaça derradeira. Foi quando Inaiê piscou, abriu os olhos — agora de verdade – A rua estava quase vazia, o barulho distante de carros. Roni e Neófilo haviam se afastado havia algum tempo, sem saber como permanecer. As pessoas que antes tentaram ajudar desistiram diante dos gritos, da resistência, da confusão que parecia não ter fim.

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Sozinha, Inaiê sentiu um silêncio pesado. Aos poucos, percebeu que fora ela quem afastara tudo,  numa defesa tão intensa que acabara confirmando o próprio medo. A ameaça que via do lado de fora exigira um tipo de proteção absoluta, como se fosse preciso erguer um muro contra os outros.

Inaiê pensou, sem organizar direito, num Leviatã ao avesso, não aquele imaginado por Hobbes, capaz de conter a violência em nome da vida comum, mas outro, íntimo e fechado, erguido para proteger apenas um indivíduo de todos os demais. Um Leviatã que não organiza a convivência, mas a dissolve.

O Fusca continuava parado onde sempre estivera. Amarelo, silencioso, esperando. Inaiê olhou para ele por alguns segundos, como quem encara algo conhecido e, ainda assim, distante, sem saber se ainda fazia parte do mesmo mundo. Imaginou que, naquele momento, a morte do que se chamava alteridade se tornara uma sentença e uma verdade.