Nhanderu oendu rã ore Nhe’ẽ: Que Nhanderu escute nossa palavra.

Cimi Sul
31499366 7584 4809 be1a 37f926a69bae

Que Nhanderu escute nossa palavra.

Manifesto da Tekoá Pindó Mirim, Povo Mbya Guarani, contra o chamado “Projeto Natureza” da Companhia Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC)

Nós, da Tekoá Pindó Mirim, em Itapuã, Viamão, dirigimos nossa palavra ao povo do Rio Grande do Sul.

08b27c53 c8a5 43c6 bbe5 6f8420f9b055
Foto: Cimi Sul.

Falamos porque nossa terra está sendo ameaçada. Falamos porque nossa água corre perigo. Falamos porque a floresta, os animais e todos os seres que vivem conosco não podem falar a língua dos jurua (não indígenas). Nós falamos por eles e com eles.

A Companhia Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC) quer construir uma grande fábrica de celulose em Barra do Ribeiro. Para convencer a população, escolheu um nome bonito: Projeto Natureza.

Mas esse nome não diz a verdade.

e6bfbc7f 6097 4027 a567 53cd5991cf70
Foto: Cimi Sul.

Para nós, povo Mbya Guarani, natureza não é propaganda. Natureza é vida. É teko porã, o bem viver. É a mata onde rezamos. É a água que bebemos. É o canto dos pássaros que anuncia o amanhecer. É a terra que alimenta nossos filhos. É onde vivem os espíritos que Ñhanderu colocou no mundo para cuidar da criação.

64c3e670 3b28 4611 84c1 60041d6cfd1f
Foto: Cimi Sul.

Não existe natureza quando uma floresta viva é substituída por milhares de hectares de eucalipto.

Não existe natureza quando milhões de litros de água são retirados dos rios para abastecer uma fábrica.

Não existe natureza quando o lucro vale mais do que a vida.

Chamam isso de desenvolvimento.

Nós chamamos de destruição.

Prometem empregos. Prometem progresso. Prometem riqueza.

Mas de quem será essa riqueza?

A experiência mostra que os maiores lucros ficam com a empresa e seus acionistas. Enquanto isso, as comunidades ficam com os impactos, com a perda da água, com a degradação da terra e com as incertezas sobre o futuro.

Também sabemos que grandes empreendimentos como esse recebem incentivos públicos e financiamentos pagos com recursos de toda a sociedade. O dinheiro é do povo. Os lucros ficam com poucos.

Perguntamos: isso é justiça?

Outra violência é querer decidir sobre nossos territórios sem nos ouvir.

Nós existíamos muito antes da chegada dos jurua. Temos nossos direitos garantidos pela Constituição Federal e pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. Temos o direito de ser consultados antes que qualquer empreendimento possa afetar nossa vida e nossos territórios.

Esse direito não foi respeitado.

Sem consulta, não existe diálogo.

Sem diálogo, não existe respeito.

Nossa luta não é apenas pela Tekoá Pindó Mirim.

É pela água que abastece cidades inteiras.

É pelos peixes que ainda vivem nos rios.

É pelos banhados, pelas matas, pelos campos e por toda a vida que depende deles.

É pelas crianças indígenas e não indígenas que têm o direito de receber uma terra viva e não um território adoecido.

See Also
83f4e263 d278 40bc b222 461e5b9d7a90

Sabemos o que aconteceu em outros lugares onde a CMPC expandiu suas plantações e suas fábricas. Povos indígenas e comunidades denunciaram impactos ambientais, conflitos e a perda de seus territórios. Não queremos que essa história se repita aqui.

Nosso povo aprendeu com os mais velhos que a terra não pertence às pessoas.

Somos nós que pertencemos à terra.

Por isso não aceitamos que transformem a natureza em mercadoria.

Não aceitamos que transformem a água em fonte de lucro.

Não aceitamos que chamem destruição de Projeto Natureza.

Nossa palavra nasce do cuidado.

Nossa resistência nasce do amor à vida.

Continuaremos defendendo nosso teko, nosso modo de viver, porque defender a terra é defender o futuro de todos os povos.

Ore yvy nda’éi mba’erepy.
Nossa terra não é mercadoria.

Yy não vende. Yy é vida.
A água não está à venda. A água é vida.

Aguyjevete.

Tekoá Pindó Mirim
Povo Mbya Guarani
Itapuã – Viamão – Rio Grande do Sul