Cimi Sul denuncia racismo e violência contra mulher indígena em supermercado de Passo Fundo

Claudia Weinman
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O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Regional Sul CIM Sul), vem a público manifestar sua indignação e denunciar um grave episódio de violência física, discriminação e racismo contra uma mulher indígena ocorrido no município de Passo Fundo, no estado do Rio Grande do Sul.

Segundo o relato registrado em ocorrência policial, no dia 15 de agosto de 2026, uma mulher Kaingang, da comunidade Goj Jur, estava em um supermercado do município – Mercado Boa Vista – acompanhada de seu filho de apenas três anos de idade. Enquanto aguardava na fila do caixa, a criança abriu uma lata de energético e tomou parte do produto. Ao perceber a situação, um funcionário do estabelecimento teria afirmado: “O indiozinho está roubando”.

A mãe contestou a acusação, esclarecendo que pagaria pelo produto. Ainda conforme o relato apresentado à autoridade policial, a discussão evoluiu para uma agressão física: o funcionário teria empurrado a mulher e desferido dois tapas em seu rosto. A vítima também relata ter sido chamada de “indígena” em meio à agressão, identificando no episódio uma situação de discriminação racial.

A ocorrência foi registrada na 6ª Delegacia de Polícia Regional de Passo Fundo (DPPA) como lesão corporal, tendo a vítima sido encaminhada para exame de lesão e manifestado o desejo de representar judicialmente contra o agressor. O documento policial registra ainda a condição da vítima como indígena e sua residência em uma aldeia indígena de Passo Fundo.

Para o Cimi Sul, não se pode naturalizar ou minimizar uma situação dessa gravidade. Acusar uma criança indígena de estar roubando, associando imediatamente sua condição étnica a uma suposta prática criminosa, não é um ato inocente. É uma manifestação que precisa ser compreendida no contexto do racismo estrutural que historicamente atinge os povos indígenas.

Mais grave ainda é que, segundo o relato da vítima, a contestação da acusação teria sido respondida com violência física e novas expressões de caráter discriminatório.

Não se trata, portanto, simplesmente de uma discussão ocorrida em um estabelecimento comercial. Trata-se de um episódio que envolve racismo, violência contra uma mulher indígena e a exposição de uma criança indígena a uma situação de humilhação e estigmatização.

O Cimi Sul reafirma que os povos indígenas têm o direito de circular, trabalhar, consumir, viver e ocupar os espaços públicos e privados sem serem tratados como suspeitos em razão de sua identidade, aparência, origem ou pertencimento étnico.

É particularmente preocupante que uma criança indígena seja associada ao roubo pelo simples fato de ser indígena. Essa lógica reproduz estigmas coloniais profundamente arraigados e contribui para a desumanização dos povos originários.

Diante da gravidade dos fatos relatados, o Cimi Sul solicita às autoridades competentes que o episódio seja rigorosamente investigado, com a devida apuração das responsabilidades.

É fundamental que sejam preservadas e analisadas as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento, ouvidos todos os envolvidos e testemunhas e adotadas as providências necessárias para que a vítima tenha acesso à Justiça e seja protegida de qualquer forma de retaliação.

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O Estado brasileiro e a sociedade têm o dever de combater toda forma de discriminação racial e étnica. Os povos indígenas não podem continuar sendo vistos como estranhos em seus próprios territórios, nem tratados como cidadãos de segunda categoria quando chegam às cidades, aos estabelecimentos comerciais, às instituições públicas ou a qualquer outro espaço da sociedade.

O Cimi Sul se solidariza com a mulher indígena vítima da agressão, com seu filho e com sua comunidade, reafirmando seu compromisso histórico com a defesa dos povos indígenas, com a superação do racismo e com a construção de uma sociedade na qual nenhuma pessoa seja humilhada, violentada ou discriminada por ser quem é.

O Cimi Sul continuará acompanhando o caso e cobrando das autoridades a devida apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos.

Chapecó (SC), 17 de agosto de 2026.

Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
Regional Sul (CIMI Sul)