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Eliminar os ventres

Eliminar os ventres

Roberto Liebgott
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Sobre Estados Unidos e Israel, inspirado a partir da fala de Breno Altman na Primeira Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre, RS, em 28 de março de 2026.

Eliminar os ventres

Não há guerra
quando se miram
os ventres, quando se tenta eliminar crianças, meninas, meninos, o feminino – sementes do tempo.

Eliminar mulheres – mães – é semear o silêncio onde pulsava vida. É apagar antes de se dar um nome, antes do choro, antes de abrir os olhos.

A distância, sobre mapas frios das telas, miram o invisível, que não cheira, não sangra, não implora e, ainda assim, acertam.

Dedos leves, dentro de uma sala fria, pressionam o teclado do computador
e o mundo cede.

Nenhum grito atravessa o vidro, tem-se apenas o brilho frio e o gesto de matar.

Mas, na distância, há um ventre aberto, uma palavra interrompida, um leite que seca, um colo em cinzas.

Lá, cada ponto pulsa,
cada número respira,
cada clique atravessa e dilacera a vida.

É simples para eles: matar como quem joga videogame: olhos fixos na tela, um prazer pálido que escorre pela ausência de sentir.

Do outro lado,
há o ventre aberto,
interrompido.

E, ainda assim, eles
celebram. Transformam ruínas em espetáculo,
escombros em vitória,
corpos em estatística.

Aplaudem a exatidão da destruição como quem admira uma obra bem feita.

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E não dizem: mulheres.
Não dizem: mães.
Não dizem: crianças.

Dizem: alvos.

Mas o mundo sabe,
mesmo em silêncio,
mesmo em cinzas,
que ali, cínica e covardemente, desejam matar o próprio amanhã.

Porto Alegre (RS), 30 de março de 2026.

Roberto Liebgott

Cimi Sul, Equipe Porto Alegre.