Inaiê: o início da jornada em busca da humanidade
Havia um velho senhor sentado em sua cadeira de balanço, à frente de uma casa simples, de telhas de barro e paredes erguidas com as próprias mãos. A casa era modesta — como ele. O ar estava leve, suavizado por um vento discreto; ainda assim, o corpo do homem não acompanhava tamanha calmaria. Os séculos que carregava haviam deixado marcas profundas, daquelas que o tempo não apaga.
Os que passavam por ali o chamavam de Senhor Descartes. Diziam que era um pensador — desses que desconfiam de tudo e não se entregam facilmente às certezas. Alguns o respeitavam; outros o consideravam apenas excêntrico.
Naquele dia, porém, algo parecia diferente.
Um grupo de jovens atravessava a rua quando o ouviu murmurar, como se falasse consigo mesmo:
— Dizem que uma nova aurora está chegando…
Ele fez uma pausa, como se cada palavra precisasse ser examinada antes de vir à tona.
— Dizem isso com tamanha convicção que até quem já duvidou de tudo começa, aos poucos, a acreditar… nem que seja por cansaço. Quem sabe até eu.
Os jovens trocaram olhares indecisos, como fazem aqueles que ainda não sabem se devem rir ou escutar.
Descartes continuou, agora com a voz mais firme:
— Não é a primeira vez que escuto esse tipo de anúncio. A história está cheia dessas promessas de recomeço, como se o mundo estivesse sempre prestes a se reinventar.
Ele inclinou o corpo levemente para frente, num gesto que anunciava algo mais importante.
— Foi em um tempo assim que ouvi falar de Inaiê… Esse é o nome que deram a ela. Quanto ao sobrenome, ninguém sabe ao certo. Alguns dizem que existia; outros juram que nunca houve. Com o tempo, essa ausência… existência passou a dizer mais do que qualquer nome poderia dizer.
Um dos jovens, até então em silêncio, deu um passo à frente. Havia dúvida em seu olhar, mas também curiosidade.
— Mas… por que isso machucava tanto? — perguntou. — Era só um nome, não era?
Descartes inclinou a cabeça, como quem acolhe a pergunta — sem, contudo, aceitá-la por completo.
— Você acha que é apenas… só um nome? — repetiu, lentamente, deixando a frase ecoar.
A cadeira rangeu quando ele se levantou. Em seguida, aproximou-se dos jovens.
— Desde criança, Inaiê fazia essa pergunta a si mesma e aos pais. No início, parecia apenas uma curiosidade, algo sem grandes consequências. Mas o tempo — como sempre — tratou de aprofundar a questão.
O jovem franziu a testa, atento.
— Na escola — prosseguiu Descartes — as outras crianças começaram a questioná-la: “Como você não tem sobrenome? Todo mundo tem!” E, pouco a pouco, a curiosidade virou exclusão. Vieram as risadas, os rótulos, o afastamento.
Ele fez uma breve pausa.
— Tornaram-na aquilo que não sabiam nomear.
Outro jovem tentou interromper, mas Descartes ergueu a mão, pedindo silêncio — não por imposição, mas por cuidado com o próprio pensamento.
— Houve dias — continuou — em que ela era encontrada chorando. Não um choro alto, mas daqueles silenciosos, carregados de perguntas que ninguém sabe responder. Ela falava da importância de um sobrenome… especialmente num tempo em que todos diziam que o mundo estava mudando.
Ele suspirou, com um leve cansaço na voz:
— A mãe sempre dizia para ter paciência. É curioso… a paciência costuma ser oferecida quando não se sabe o que oferecer.
Um dos jovens, agora mais envolvido, perguntou:
— Era como se, sem um sobrenome, ela não pudesse corresponder ao que se esperava de alguém?
Descartes respondeu, após um instante:
— Não o suficiente para aceitar. Mas o bastante para ferir.
Nesse momento, algo mudou.
A realidade pareceu ceder lugar a outra coisa. Diante deles, pouco a pouco, formava-se a imagem de Inaiê — uma menina de olhar desconfiado, que começava a perceber que havia algo errado. Não apenas com a ausência de um sobrenome, mas com a forma como o mundo reagia a isso.
Então, como se a voz dela emergisse daquele espaço indefinido, ouviram:
— Por que pareço invisível? Por que me tratam como uma estranha? É como se houvesse algo em mim que precisasse ser evitado…
Ela hesitou, antes de completar:
— …como se eu carregasse algo perigoso.
O silêncio se instalou — um silêncio denso, feito de estranheza e reconhecimento.
— O pior — continuou Inaiê — não é não ter um sobrenome. É não ser vista.
Os jovens se entreolharam. De alguma forma, já não estavam apenas ouvindo. Estavam dentro daquilo.
— Isso é real? — perguntou um deles, inquieto. — Ou estamos sonhando?
Nesse instante, Descartes desapareceu de suas vistas. No lugar dele, Inaiê deu um passo à frente.
— Talvez vocês estejam apenas despertando — disse ela. — E o despertar, às vezes, inquieta mais do que o sono.
Um dos jovens reagiu, desconfortável:
— Você parece um sonho… algo fora da realidade. Não vê que precisamos seguir em frente? Há algo novo surgindo.
Inaiê o encarou com firmeza.
— Esse “novo” de que você fala… já não ouvi isso antes? Não passa de mais um discurso. Por trás dele, muitas vezes, esconde-se o mesmo desejo: organizar o mundo à custa do que é diferente.
O jovem hesitou, mas insistiu:
— E se não houver lugar para o que não se encaixa?
Inaiê respondeu, sem suavizar o tom:
— Então não é um novo mundo. É apenas o mesmo, com outras palavras.
Um clarão cortou o céu. O estrondo fez tudo estremecer. Por um instante, apenas o pensamento de Inaiê permaneceu:
— Achei que bastaria um sobrenome… mas talvez seja preciso algo mais.
Foi então que Descartes reapareceu.
— Você precisa lançar-se ao mundo — disse ele. — Mesmo sem garantias. Caso contrário, será soterrada pelo medo que o mundo tem do que é diferente.
— Por que eu? — questionou Inaiê.
— Porque não é só sobre você — respondeu ele. — O novo, para o humano, nasce de experiências solitárias. E, neste tempo, até o coletivo se submete ao individual.
No mesmo instante, uma águia cruzou o céu — firme, e ao mesmo tempo incerta. Como tudo o que insiste em existir. E então, no silêncio que ficou, a pergunta foi sentida, mas não pronunciada: onde, afinal, ainda é possível encontrar a humanidade?
— E, mais inquietante — a pergunta ficou: quem ainda está disposto a reconhecê-la? O mundo aceita os estranhos, desde que permaneçam inofensivos. Porque, no fundo, ninguém quer ser transformado por eles.
Carlos Weinman possui graduação em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Rede Pública do estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: Estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.
