Lendo agora
João Tupã Naravy centurião se encantou

João Tupã Naravy centurião se encantou

Cimi Sul
blank

O povo Ava-Guarani e o Tekoha Ocoy estão de luto

 

Todos nós perdemos um pouco da sabedoria

centenária e da ancestralidade milenar de um

sábio Guarani (1921-2026).

 

O filho de Tupã — a divindade da chuva, dos relâmpagos, dos raios e do trovão – partiu da morada terrena e foi assentar-se em seu amba (altar), junto ao Pai.

TUPÃ NARAVY nasceu no oeste do estado do Paraná, no Yvy Mbyté (centro do mundo), quando as águas do Rio Paraná ainda fluíam límpidas entre as pedras, anunciando bons dias e abrindo portais para os Oguata Porã (boas caminhadas); quando as Sete Quedas ainda anunciavam, pelo ruído das águas, a expressão mais singela da criação de Nhanderu.

Nascido em agosto de 1920, no Tekoha Guarani, no então recém-criado município de Foz do Iguaçu, ele viu a mata da região ser destruída e substituída pelo verde da soja e do milho, embranquecidos pelo veneno. Viu o Rio Paraná ser transformado em um imenso lago. Viu sua terra ser tomada por invasores que, com armas apontadas para a cabeça de seu pai, obrigaram toda a família a fugir. Viu o Estado brasileiro, por meio do Incra e da Funai, documentar os invasores e negar o seu próprio direito.

Fez jus ao seu nome forte: TUPÃ NARAVY. Como um trovão, enfrentou a poderosa Itaipu Binacional quando o lago ainda não havia se formado. Ao lado de outros líderes, como Kambaí, conquistou uma pequena, mas acolhedora terra às margens do riacho Santa Clara – que logo em seguida seria transformado em lago.

TUPÃ NARAVY, como um relâmpago resplandecente e luminoso, ajudou a iluminar o caminho dos mais jovens, transmitindo a sabedoria e os ensinamentos dos ancestrais. Com seu exemplo, seu povo seguiu lutando por direitos, pela demarcação de territórios e por reparações que devolvam o que foi roubado, para que se restitua a verdade e se faça justiça.

TUPÃ NARAVY (à esquerda) e Vicente Vogado na manifestação pela devolução da terra, quando da vinda da Missão do Banco Mundial a pedido da comunidade Guarani. São Miguel do Iguaçu. Fonte: Cimi Sul

Não sabia ler nem escrever, mas nunca abandonou o sonho. Compreendia que a escola era uma instituição dos Juruá kuéra (não indígenas), mas também sabia que era importante conhecer e dominar as armas do outro — que, por muitas vezes, era o inimigo.

Após uma centena de anos, ele voltou à escola. Na celebração de seus 102 anos, deixou seu nome escrito na lousa: um exemplo para as jovens gerações de que é possível apropriar-se da escola e da universidade sem abandonar seus próprios costumes.

Tupã Naravy escrevendo o seu nome na lousa. Fonte: Christian Rizzo/Uol Fonte: Christian Rizzo/Uol

Sua Partida

Na madrugada deste dia 18 de março de 2026, faleceu o Avá-Guarani João Centurião, aos 105 anos. João era conhecido por sua alegria, sabedoria e pela incansável luta por justiça e reparação ao povo Avá-Guarani.

Nascido em 1920, viveu em diversos tekoha kuéra da região oeste do Paraná, especialmente durante a década de 1970. Foi uma das últimas lideranças forçadas a deixar o tekoha Guarani — terra indígena em Foz do Iguaçu que foi tomada por invasores com o aval do Incra e da Funai. Naquele território, ficaram enterrados sua mãe, sua esposa e seu filho, uma perda que marcou profundamente sua trajetória.

Após a expulsão, João seguiu para o Paraguai. Mais tarde, retornou ao Tekoha Ocoy a convite do cacique Fernando Martines (Kambai), onde fixou sua morada definitiva. Entre os anos de 1984 e 1988, exerceu a função de cacique, liderando a comunidade na luta por direitos e pela reparação histórica frente à Itaipu Binacional.

See Also
blank

João Centurião quando era cacique com o falecido Dom Olívio Fazza, bispo de Foz do Iguaçu. Fonte: Cimi Sul

João também era um exímio agricultor; mesmo diante da escassez de terra, nunca abandonou os roçados, mantendo viva sua relação com o cultivo e o sustento da comunidade. Gostava de andar de bicicleta, sendo comum vê-lo percorrendo os caminhos dentro do Tekoha e em direção à vila vizinha.

Demonstrando sua força e vontade de aprender, aos 102 anos, iniciou seus estudos na Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Indígena Teko Nemoingo. João Centurião deixa um legado de resistência, sabedoria e compromisso. Sua memória seguirá viva na história do povo Avá-Guarani. Caracterizado por sua atenção e acolhimento, mantinha um diálogo constante com amigos e estudantes da Unila, sempre interessados em seus conhecimentos e vivências.

O Cimi Sul lamenta profundamente a partida de JOÃO TUPÃ NARAVY CENTURIÃO e manifesta sua solidariedade ao povo Avá-Guarani. Ao mesmo tempo, expressamos nossa imensa gratidão por todo o aprendizado e pela sabedoria partilhada ao longo de tantos anos de convívio e resistência. Sua memória permanecerá como guia em nossas caminhadas.

Tupã Naravy com aluno de História da Unila. Fonte: Clovis Brighenti

 

João Centurião e Jussara Rezende do Cimi, nos 40 anos da mudança do Ocoy/Jacutinga para o atual Ocoy. Fonte: Cimi Sul

 

Foz do Iguaçu, 18 de março de 2026

Osmarina de Oliveira e Clovis Antonio Brighenti

Cimi Sul – Equipe Foz do Iguaçu