Lançando bombas e promovendo sequestros, o império da morte invadiu a Venezuela
Ao nascer do terceiro dia do ano de 2026, o presidente dos Estados Unidos da América decidiu bombardear a Venezuela e de lá sequestrar seu presidente e a primeira dama, Cilia Flores. Acusam Nicolás Maduro de narcotraficante e terrorista. Segundo os enunciados públicos do presidente Donald Trump, ambos estão sob custódia e deverão responder na Justiça norte-americana por esses dois crimes. Também anunciou, sem pudor, que tomarão conta do país e irão gerenciar as empresas de petróleo.
No mundo se sabe que as acusações são falsas. No mundo se sabe que os interesses recaem sobre a maior reserva de petróleo do mundo e que as grandes corporações estadunidenses desejam tomar posse. Também já se sabe, pelo mundo afora, que ONU, ou as grandes potências mundiais silenciarão diante desse crime internacional praticando contra o Povo Venezuelano e sua soberania.
O mundo também sabe que esse crime não é uma exceção. Tudo foi calculado e com método. O imperialismo criminoso não improvisa: ele executa.
Todos os governos no mundo sabem que onde há riqueza estratégica, lá instala-se o cerco; onde há soberania insurgente, impõe-se a guerra; onde há povo organizado, produz-se o inimigo.
A Venezuela não está sob bombas porque fracassou, mas porque resistiu à exploração estrangeira. Resistiu à submissão completa, à pilhagem sem freios, à condição histórica que o Norte global reservou à América Latina: ser quintal, reserva de recursos, território sacrificável. O petróleo venezuelano não é apenas combustível – é pretexto, é alvo, é sentença.
O discurso imperial é velho e cínico. Fala em democracia enquanto financia golpes. Invoca direitos humanos enquanto multiplica cadáveres. Clama por liberdade enquanto estrangula economias inteiras. Trata-se de uma linguagem cuidadosamente construída para ocultar o essencial: o império mata para manter privilégios.
Leis internacionais, tratados, soberania dos povos – tudo isso vale apenas quando serve ao capital. Quando não serve, é rasgado sem pudor. O direito internacional transforma-se em arma seletiva; a diplomacia, em chantagem; as sanções, em guerra silenciosa. Morre-se de bomba ou de fome – ambas são estratégias legítimas para o império.
Não há neutralidade possível. A violência não é exceção: é estrutura. O sistema global precisa de territórios sacrificáveis para continuar funcionando. Precisa de povos empobrecidos, governos enfraquecidos, Estados tutelados. A morte distante é normalizada porque não atravessa as fronteiras do conforto imperial.
O trumpismo apenas escancara o que sempre esteve presente. Retira a máscara liberal, abandona o verniz civilizatório e assume o que é: poder bruto, supremacia e dominação.
Não se trata de um homem apenas, mas de um projeto. Um projeto que despreza a vida, criminaliza a diferença e governa pela intimidação.
A América Latina conhece esse roteiro. Conhece as bombas, os bloqueios, os golpes, as ditaduras patrocinadas, os desaparecimentos, os corpos sem nome. Conhece porque foi laboratório. O que hoje se impõe à Venezuela já atravessou o Chile, a Nicarágua, Cuba, o Brasil, a Argentina e o Haiti. O sangue latino-americano construiu a estabilidade do império.
A Venezuela, hoje bombardeada, é espelho. O ataque ao seu povo é um aviso a todos os outros: ousar autonomia tem custo. Sonhar fora da ordem tem preço. Romper com a lógica colonial será sempre punido com violência exemplar.
Diante disso, o silêncio é cumplicidade. A moderação do discurso é rendição. Não basta lamentar as mortes – é preciso denunciar o sistema que as produz. Nomear o imperialismo, expor sua perversidade, recusar sua narrativa.
Defender a Venezuela é defender a possibilidade de soberania para os povos do Sul. Porque cada bomba que cai não destrói apenas casas e corpos. Ela tenta destruir a ideia de que outro mundo é possível. E é exatamente por isso que resistir – escrever, denunciar, organizar, lutar – continua sendo um ato profundamente político e radical.
Chapecó (SC), 03 de janeiro de 2026.
Ivan Cesar Cima e Roberto Liebgott.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
