Lembranças que fazem presença

Cimi Sul
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Por Jussara Rezende e Ricardo Albernaz/Cimi Sul.

Catarina Nimbopyruá fez sua travessia.

Lembranças…

Posto Indígena Peruíbe-SP (criado na época do SPI) mais conhecido como aldeia do Bananal, berço da Família Samuel, a qual pertencia o pai de Catarina, João Samuel.

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Catarina, no centro da foto, acompanhada de uma criança indígena e das missionárias do Cimi Sul, Amanda (esquerda) e Jussara (direita).

Em 1977 sua família morava no bairro Belas Artes, em Itanhaém, litoral sul de SP. Catarina compunha a Equipe de Pastoral Indigenista recém formada da Diocese de Santos. Em 1979 a equipe do Cimi instala-se nesta cidade. A partir de então nasce uma relação profunda de amizade, confiança e companheirismo na luta pela conquista dos direitos indígenas.

Nas estadias em aldeias guarani no estado de São Paulo, muitas conversas e aprendizados de um lado e outro. Referência maior na aldeia de Itariri-SP, Cabeceira do Rio do Azeite, onde Antônio Branco (xamã e cacique) e sua esposa Angelina, nos acolhiam. Nestes momentos as trocas de conhecimento eram de uma riqueza ímpar. Catarina, com sua vivência na aldeia e cidade, conseguia decodificar mundos culturais distintos, facilitando a compreensão da transmissão mútua de saberes.

Junho de 1982 – Com os Avá-Guarani do Ocoy Jacutinga – PR

Recordar e agradecer sua atuação, acompanhando a equipe do Cimi na reunião de “negociação” entre a comunidade com a FUNAI e Itaipú Binacional. Catarina, traduzindo o português para os guarani. Às vésperas do fechamento das comportas da hidroelétrica, os Avá-Guarani eram as últimas famílias que ainda insistiam em permanecer na área a ser alagada. No comando político o cacique e xamã Nhanderú Kamba’í – Fernando Martinez.

Itaipú iniciou em 1975 e há anos, buscava expulsá-los. Em 1980, 81 e 82 a empresa propõe pequenas porções de terra, inclusive no estado de SP. Os avá-guarani se negavam a sair de suas terras. Exaustos e pressionados pela eminência do alagamento concordam, estrategicamente, com uma das propostas de Itaipú e se estabelecem numa pequena terra, às margens o lago que viria a se formar, em São Miguel do Iguaçú-PR. Diziam, à nós, que necessitavam de um tempo. Tempo para apaziguar o coração, ficar tranquilo, acumular forças para então seguir reivindicando os direitos do povo. A partir de então, outras lutas se travaram (e se travam) resultando em outras parcelas de terras e novas aldeias no Paraná.

“Nós somos deste lugar” Os tupi-Guarani

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Foto: Arquivo Cimi Sul.

Chamava atenção da equipe do Cimi as diferenças físicas e o modo de ser dos membros do clã Samuel dos demais guarani mbyá e nhandeva que viviam na região. Sobre isso conversávamos com Catarina. Ela insistia sempre em um ponto. Afirmava que seus antepassados eram originários da região, conforme havia sido transmitido de geração a geração. Esta história era intrigante permanecendo como algo a ser elucidado o que finalmente aconteceu em conversa com irmão do pai de Catarina, o cacique e respeitado nhanderú (xamã) Jijokó da TI Silveira (São Sebastião-SP). Através da história oral de seu povo, conta que antigamente viviam na região os Tupinambá. Para aí migraram os Guarani e firmaram alianças com os Tupinambá, inclusive matrimoniais. As gerações seguintes foram assimilando costumes de uma e outra parte, prevalecendo o idioma guarani. Sobre a língua tupinambá Jijokó, recordou algumas palavras.

Interessante e notório a miscigenação, mesmo séculos depois. A mãe de Catarina e seu irmão João (casado com Alícia, filha do cacique Antônio Branco e morador com sua família na Aldeia Cabeceiras do Rio do Azeite -Itariri) apresentavam características físicas e culturais semelhantes à dos Guarani Nhandeva, enquanto que Catarina, alguns irmãos, primos e tios diferiam fisicamente e mesmo no modo de ser.

Fato é que nos primeiros anos do século XXI, Catarina, sua família e demais famílias descendentes do clã Samuel passaram a se autodenominarem Tupi-Guarani, marcando a diferença. Retomaram parte das suas terras hoje conhecida Terra Indígena Piaçaguera, em Peruíbe/Itanhaém, abrigando várias aldeias. Os Tupi-Guarani continuaram e continuam em movimento, retomando suas terras e fundando novas aldeias.

Articulação com a UNI – União das Nações Indígenas

Na década de 80 aproximou-se da recém criada UNI, União dos Povos Indígenas, com sede em São Paulo. Ailton Krenal e Álvaro Tucano frequentavam a casa do Cimi em Itanhaém e juntamente com Catarina, faziam visitas às comunidades guarani da região.  Em 1984, em plena ditadura militar/empresarial foi realizado em Itanhaém o ATO PELAS DIRETAS JÁ na praça central da cidade. Ailton Krenak (UNI) Catarina e Cimi participaram na preparação e realização. Assim Catarina foi se tornando cada vez mais imprescindível sua Presença entre lideranças políticas e pessoas de reconhecido e prestígio em nível local, estadual e nacional e internacional.

Constituinte

Catarina crescia em consciência crítica. O fato de ter vivido em dois mundos culturalmente diferentes e opostos lhe favorecia a análise. No processo da Constituinte, passagens pelas aldeias, idas e vindas à São Paulo, Brasília, marcaram sua caminhada na defesa dos direitos dos povos indígenas.

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Se tornou uma grande porta voz e diplomata dos povos indígenas perante a sociedade nacional, abrindo portas de dialogas para fortalecer a luta num processo de rompimento com discriminação preconceito e violência historicamente imposta aos povos indígenas. Sua luta junto a outras lideranças de base no processo constituinte rompeu o poder do Estado sobre os povos por meio da tutela, com a autodeterminação e seus direitos originários.

Educação escolar indígena

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Foto: Arquivo Cimi Sul.

Catarina sempre demonstrou interesse pela educação escolar indígena. Prosseguiu seus estudos, fazendo graduação e pós. Foi professora, escritora, e importante conselheira no Conselho Político da Licenciatura Intercultural Indígena (LINDI), lutando incansavelmente pela educação escolar indígena. Mãe, avó, bisavó, liderança espiritual da aldeia Tapirema, na TI Piaçaguera – Peruíbe/Itanhaém-SP.

Aguyjvete

Seu canto, sua voz, seus ensinamentos tocaram gerações, fortalecendo quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado. Para nós, do CIMI, presença acolhedora, generosa e inspiradora. Sua partida deixa uma imensa saudade.

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Foto: Arquivo Cimi Sul.

Catarina…sua presença sempre estará entre nós! Gratidão por sua vida! Gratidão por seus ensinamentos!

Siga sua caminhada para a morada de Nhanderú. Seu canto continuará ecoando entre nós, iluminando nossos caminhos.

AGUYJEVETE!