O trumpismo e o sionismo conduzem o mundo ao abismo
O mundo vem sendo governado por dois psicopatas gananciosos e genocidas, sob o silêncio, a conivência e os aplausos.
Parece que a humanidade caminha como quem anda à beira de um precipício. O vento sopra forte, as pedras começam a ceder sob os pés e, ainda assim, segue adiante como se nada estivesse acontecendo.
Figuras como Donald Trump e Benjamin Netanyahu tornaram-se expressões de um tempo e de uma política marcados pela brutalidade, pela força e pela convicção de que o poder tudo pode. Protegidos por seus Estados, mandam atacar outros povos. Invadem, bombardeiam, sequestram governantes ou mandam assassinar.
Há, entre eles, uma forte associação criminosa por meio da qual destroem cidades, explodem escolas, hospitais, casas e usinas de água – fonte essencial da vida. Não atacam apenas edifícios ou sistemas de abastecimento: atacam aquilo que sustenta a existência. Fazem da água – bem comum, direito elementar e princípio de toda vida – um instrumento de guerra. Ao destruir fontes, redes e usinas, não interrompem apenas o fluxo da água, mas impõem a sede, espalham doenças, aprofundam o sofrimento e golpeiam, ao mesmo tempo, o corpo e a dignidade de povos inteiros.
Transformar a água em arma talvez seja uma das expressões mais brutais dessa engrenagem de dominação e extermínio. Porque, quando se nega a um povo o acesso ao que sustenta a vida, o que está em curso não é apenas uma ação militar ou uma decisão de governo, mas a manifestação de uma lógica de poder que ultrapassa governantes e fronteiras.
Não se trata, portanto, apenas de governos ou de líderes isolados, mas de uma racionalidade política e civilizatória que reaparece na história sempre que a humanidade se afasta de seus próprios limites legais, morais e éticos. É nesse terreno sombrio que volta a germinar o extremismo nazifascista.
Mas nenhum projeto de destruição se sustenta sozinho: ele sempre necessita de amparo ideológico, cumplicidade e silêncio. O silêncio das grandes potências, que observam o mundo como quem observa um tabuleiro, movendo peças com frieza calculada. O silêncio pesado dos corredores da Organização das Nações Unidas (ONU), onde, muitas vezes, as dores do mundo se transformam em relatórios, discursos e resoluções que raramente alcançam o clamor das vidas ceifadas.
E há também os aplausos, aqueles discretos, muitas vezes disfarçados de neutralidade. Ecoam em parte da mídia global, que transforma guerras em espetáculo e sofrimento em audiência. As bombas tornam-se imagens repetidas; os mortos, números; e as cidades em ruínas passam a compor a paisagem cotidiana de um noticiário sem fim.
Há, ainda, a euforia dos ignorantes, capturados por discursos de ódio e por mentiras em nome de deus, da família, da pátria, da liberdade, da propriedade e do patriarcado. São eles que alimentam, legitimam e dão corpo e voz ao nazifascismo.
Imaginemos, por um instante, uma cena comum: um homem decide roubar uma casa. Para garantir o roubo, decide matar todos os que vivem ao redor. Primeiro os vizinhos, depois quem passa pela rua, depois qualquer um que possa representar um obstáculo. Nenhuma sociedade aceitaria tal lógica. Nenhum tribunal hesitaria em condená-lo. Mas, quando Estados poderosos recorrem à mesma lógica – destruir territórios inteiros, arrasar cidades, eliminar populações para garantir domínio, influência ou recursos – o julgamento parece dissolver-se na névoa da geopolítica.
E assim, diante dos olhos do mundo, a violência vai sendo normalizada. Como ocorre na Palestina e na guerra contra o Irã, onde se revelam as feridas profundas do nosso tempo: a desigualdade no valor da vida e a redução de seres humanos à condição de objeto diante dos interesses de psicopatas genocidas.
Observa-se, no cotidiano das violências, que algumas mortes mobilizam o mundo, enquanto outras parecem destinadas ao esquecimento. Algumas vidas são tratadas como universais; outras, como descartáveis. Nesse contexto, palestinos e iranianos não valem um vintém para a lógica perversa do poder.
Talvez aí comece a verdadeira barbárie. Ela não nasce no primeiro disparo, nem na primeira bomba ou nos mísseis. Nasce antes: nas palavras que desumanizam, nos discursos que justificam, nas instituições que hesitam e nas consciências que se acostumam. A barbárie cresce quando a dor do outro deixa de nos pertencer e o mundo continua girando enquanto cidades são reduzidas a pó; enquanto crianças aprendem o som das bombas antes das canções; enquanto povos inteiros sobrevivem entre ruínas, exílio e luto; enquanto lhes é arrancado até mesmo o direito à água.
Enquanto isso, nos gabinetes do poder, os mapas são redesenhados, os interesses são calculados e as vidas humanas se transformam em cifras invisíveis, em efeitos colaterais. Mas os impérios erguem-se e caem. Fronteiras mudam. Poderes que pareciam eternos tornam-se apenas capítulos de livros.
O que permanece é a memória dos povos. Mesmo sob os escombros, as vozes continuam a entoar palavras de resistência e as raízes insistem em romper a terra. Porque onde houver memória, haverá também luta para que a água volte a correr livre, para que a vida volte a florescer e para que a dignidade não seja enterrada.
Mesmo quando o mundo parece mergulhar nas profundezas da morte, há sempre quem mantenha acesa uma pequena chama – frágil, mas obstinada – lembrando à humanidade que nenhuma paz verdadeira nascerá enquanto a vida do outro puder ser tratada como descartável.
Os psicopatas genocidas de agora passarão. Mas deixarão no caminho traçado pela perversidade e pela ganância – no petróleo entregue às grandes corporações, nos vultosos recursos gastos para matar gente e destruir nações, no envenenamento da terra e na negação da água – rastros de devastação que permanecerão inscritos nos corpos e nas memórias dos povos violentados.
Porto Alegre (RS), 14 de março de 2026.
Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima
Cimi Sul – Equipes de Porto Alegre e Norte do RS.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
