Ruínas e o amanhã
Na solidão do tempo permanecem rabiscos de memórias marcadas na pedra, em paredes que gritam no silêncio.
Ruínas de uma história rasgada pela invasão da terra, dos corpos, das almas dos povos originários.
Pedras talhadas por mãos Guarani, sob suor e sangue – penitência que não lhes cabia, erguida a um Deus estrangeiro, carregado entre a cruz e a espada.
Ruínas esvaziadas de povo, nem seus herdeiros podem entrar nelas. Um cenário turístico que lucra sobre a égide do preconceito – do racismo estrutural.
Lucra sobre a memória transformada em vitrine, enquanto os verdadeiros sujeitos são afastados e mantidos à margem do chão sagrado-saqueado.
Um cenário de troncos arrancados, de matas convertidas em verde-soja, onde o ar transporta fuligem dos silos, expostos como progresso.

A cruz missioneira foi erguida em honra ao Cristo de fora, mas sobre a negação de Ñhanderu,
que nunca abandonou
o sopro da mata,
o canto da água,
a palavra ancestral.
Ruínas das batalhas.
Do genocídio.
Do sangue derramado em defesa do sonho.
Ruínas da terra sem mal sufocada.
Do amanhã interrompido
pela lâmina e pelos canhões.
Mas, apesar do longo tempo, o que foi imposto não apagou o sagrado.
O que foi devastado não destruiu a memória.
O que foi silenciado não deixou de existir.
Porque a Terra Mãe guarda nomes, guarda passos, guarda promessas.
E um dia – não por benevolência,
mas por resistência – as raízes romperão o concreto da história.
Não será vingança, será retomada. Não será esquecimento, será justiça que floresce.
Das ruínas ouviremos canto, do luto a dança e do chão ferido um novo amanhã.
Porto Alegre (RS), 18 de fevereiro de 2026.
Roberto Liebgott.
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
