O Chimarrão, o Velho Fogão e Abdul
Algumas amizades começam nas palavras. Outras surgem quando duas solidões se reconhecem. Inaiê e Ulisses caminhavam juntos havia pouco tempo, mas algo silencioso já os unia. Talvez fosse a estranheza. Talvez fosse o fato de ambos carregarem perguntas que o mundo parecia incapaz de responder.
Entre os estranhos existe uma espécie de linguagem que dispensa explicações. Reconhecem-se pelas ausências, pelas feridas e pelos silêncios. Compartilham a dor como quem divide o sal de uma refeição humilde. E compartilham também as flores, poucas e raras, que insistem em nascer mesmo nos terrenos mais áridos. Porque aqueles que conhecem o peso da travessia aprendem a valorizar os pequenos instantes de beleza que a vida oferece.
Ulisses carregava uma dessas travessias dentro de si. Durante muitos anos caminhara como alguém que havia perdido o rumo da própria existência. Por fora seguia adiante. Por dentro, entretanto, sentia-se acompanhado pelos escombros de um passado que jamais deixara para trás. O desespero do mundo havia se alojado em seu espírito, consumindo lentamente aquilo que ele acreditava ser sua essência. Houve momentos em que lhe pareceu estar mais próximo da sombra do que da vida.
Então encontrou Inaiê. Quando a resgatou após a tempestade, acreditou estar apenas ajudando uma jovem viajante perdida. Não imaginava que, ao estender a mão para aquela estranha sem sobrenome, também estivesse estendendo a mão para si mesmo.
Pela primeira vez em muitos anos, sentiu que não precisava carregar sozinho o peso da jornada. As palavras que durante tanto tempo permanecera sufocando começaram a emergir lentamente, como alguém que retorna à superfície depois de permanecer tempo demais submerso.
Havia uma história guardada em sua alma. Uma história feita de perdas, ausências e cicatrizes. A história de uma família que aprendera cedo demais o que significava tornar-se invisível e, mais doloroso ainda, sentir os espinhos dos cactos cravarem-se na pele sem sequer ter o direito de reclamar.
Ulisses respirou profundamente. Foi nesse instante que olhou para Inaiê e sentiu nascer o desejo de compartilhar uma história dura, daquelas que raramente confiava a alguém. Durante muito tempo a mantivera escondida, como quem protege uma ferida do contato com o mundo.
Talvez porque, entre os estranhos, exista algo que nem sempre é encontrado em outros lugares: o compartilhamento. Compartilha-se a dor, compartilha-se o sal das lágrimas das longas travessias e compartilham-se também as flores, poucas e raras, mas preciosas justamente por nascerem onde quase nada floresce.
De repente, sem perceber, sua voz ganhou firmeza. As palavras, antes dispersas em sua memória, começaram a se organizar. Quando menos esperava, já falava de alguém que jamais deixara de caminhar ao seu lado, seu pai, Abdul.
— Inaiê, eu venho do Sul do Brasil. Lá existem casas em que o fogão a lenha é mais do que um objeto. Ele guarda uma geração inteira. Ao seu redor, vidas se encontram todos os dias. Sonhos, dores, esperanças e lembranças aquecem-se junto ao fogo.
Nesse instante, uma lágrima escorreu pelo rosto de Ulisses.
— Nossa casa era simples. Quando penso nela, ainda sinto o cheiro da lenha queimando e o gosto amargo do chimarrão.
Inaiê franziu levemente a testa.
— Chimarrão?
Ulisses sorriu.
— É uma bebida muito comum lá no Sul. Amarga para quem prova pela primeira vez. Mas dificilmente alguém a esquece depois.
Fez uma breve pausa.
— Talvez porque quase nunca seja tomada sozinho. Ela passa de mão em mão enquanto as pessoas conversam, contam histórias e compartilham suas vidas.
Seu sorriso desapareceu lentamente.
— Curioso… algumas lembranças têm sabor de saudade. Outras carregam a dor daquilo que o tempo levou e jamais devolveu.
Novamente fez uma pausa.
— Às vezes penso que essas memórias são mais fortes do que o frio que insistia em atravessar as frestas das paredes durante o inverno.
Inaiê permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Então era ali que as pessoas se encontravam?
Um leve sorriso surgiu novamente no rosto de Ulisses.
— Mais do que isso. Era ali que elas aprendiam quem eram.
Seus olhos perderam-se por um instante em algum lugar distante.
— Ao redor do fogão, meus pais planejavam os dias que estavam por vir. Falavam do trabalho, do pasto que precisava ser cuidado, da terra que ainda aguardava o preparo para o plantio. Conversavam sobre as sementes que precisariam comprar e sobre a preocupação crescente com a diminuição do leite produzido pela junta de vacas, animais que não serviam apenas para alimentar a família, mas também para ajudar no trabalho de arar a terra.
— Falavam das dificuldades que insistiam em aparecer e das pequenas conquistas que davam sentido ao esforço de cada dia. Comentavam as histórias da vizinhança, as colheitas que haviam dado certo, as que fracassaram, os nascimentos, as despedidas e as alegrias simples que visitavam as casas de tempos em tempos.
Seu olhar tornou-se ainda mais distante.
— Era assim que a memória da nossa gente continuava viva. Ao redor daquele fogo, os que já haviam partido voltavam a ter voz. Meus pais contavam suas histórias como quem entrega uma herança. E nós, sem perceber, aprendíamos que pertencíamos àquela terra, àquelas pessoas e àquele tempo.
Inaiê abaixou os olhos.
— Estou tentando imaginar como deve ser.
Ulisses voltou-se para ela.
— O quê?
— Saber de onde se veio.
O silêncio pairou entre os dois por um instante.
— Eu nunca tive isso — continuou ela. — Histórias para herdar. Uma família que me contasse de onde vim. Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo procurando um sobrenome.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o silêncio de duas ausências que finalmente se reconheciam.
Ulisses compreendeu.
— Eu perdi aquilo que tinha. Você procurou por toda a vida aquilo que nunca teve.
Inaiê assentiu levemente.
— No final, continuamos procurando a mesma coisa.
Ulisses observou o horizonte por alguns instantes e disse:
— Pertencimento.
Uma brisa suave atravessou a vegetação ao redor.
— Éramos muitos — continuou ele. — E, como acontece em toda família grande, sempre havia alguma travessura. Nessas horas, meu pai erguia a voz como quem desejava impor ordem ao mundo. Minha mãe costumava devolver tranquilidade ao ambiente. Embora, para ser sincero, nem mesmo ela resistisse sempre às nossas artes.
Pela primeira vez desde que começara a recordar, Ulisses sorriu.
— Hoje percebo que aqueles dias eram simples demais para que entendêssemos sua riqueza. Talvez a felicidade seja assim. Ela costuma morar nos lugares comuns e só revela seu valor quando se transforma em lembrança.
Inaiê franziu a testa.
— Como era seu pai?
A pergunta atravessou Ulisses como uma flecha. Por alguns instantes, não respondeu.
Fechou os olhos e desceu às profundezas da própria memória. Os antigos contavam histórias de homens que atravessavam os portões do reino dos mortos em busca daqueles que amavam. Naquele instante, compreendeu que fazia o mesmo.
Abdul já não caminhava pela terra. Restavam-lhe apenas as lembranças. E as lembranças são frágeis. O tempo apaga rostos, silencia vozes e cobre os caminhos com sombras. Sentiu-se diante de um reino escuro, onde cada recordação precisava ser disputada contra o esquecimento. Tentou recordar o sorriso do pai. Depois sua voz. Depois o modo como olhava para os filhos ao redor do fogão. As imagens surgiam em fragmentos, como pequenas luzes resistindo à escuridão.
Talvez os poetas estivessem certos quando diziam que a pior morte é o esquecimento. Porque havia algo mais doloroso do que perder alguém: perder também a lembrança de quem essa pessoa foi.
Naquele instante, Ulisses sabia o que precisava fazer. Precisava trazer Abdul de volta. Nem que fosse apenas através das palavras.
Ulisses começou a falar:
— Meu pai tinha uma expressão sofrida. Seu rosto carregava as marcas de quem havia trabalhado mais do que a vida deveria exigir de um homem. A voz era grave e forte. Mesmo quando não pretendia erguer o tom, parecia ocupar todo o espaço ao redor.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Mas não era um homem amargo. Era reservado na maior parte do tempo, daqueles que falam pouco e observam muito. Ainda assim, tinha um jeito brincalhão que aparecia nos momentos felizes. As pessoas gostavam de conversar com ele. Quando se sentava perto do fogão, sempre havia alguém disposto a ouvir suas histórias ou compartilhar as próprias.
O sorriso permaneceu por um instante.
— Acho que uma das coisas que mais me assustam é perceber como o tempo tenta apagar essas pequenas lembranças. E, no entanto, são justamente elas que fazem alguém continuar vivo dentro de nós.
Fez uma breve pausa.
— Meu pai começou a trabalhar muito cedo. Morava em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul e conseguiu seu primeiro emprego aos quinze anos. Embora fosse um trabalho informal, ele costumava dizer que aquela foi uma das maiores realizações de sua juventude.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Era em uma fábrica de bebidas. Meu pai contava que, naquele tempo, enxergava o trabalho como o caminho para conquistar sonhos e construir uma vida melhor. Em sua imaginação, aquele primeiro emprego representava o início de tudo. Era a porta de entrada para um futuro que parecia promissor.
O olhar de Ulisses perdeu-se por um instante nas lembranças, como aquele que desce às profundezas da escuridão para resgatar um rosto amado do esquecimento. Depois, continuou:
— Mas a vida raramente corresponde às expectativas com que começamos a sonhar. O salário mal era suficiente para cobrir suas despesas mais básicas. Como ainda era menor de idade, recebia menos do que os outros trabalhadores. E havia algo que o incomodava ainda mais: na fábrica, não aprendia quase nada. Todos os dias fazia exatamente a mesma tarefa, no mesmo setor, repetindo os mesmos movimentos.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Mesmo assim, ele continuava sonhando. Sentia-se feliz. Sabia que muitas pessoas estavam desempregadas, tanto em sua cidade quanto no país. Sabia também que havia famílias inteiras lutando para sobreviver. Diante disso, considerava-se afortunado. Afinal, ganhava quase um salário e acreditava que aquele era apenas o primeiro degrau de uma longa escada.
Ulisses respirou fundo.
— Meu pai ainda não sabia, mas estava prestes a descobrir que o trabalho não transforma apenas a vida de um homem. Às vezes, transforma também a maneira como ele enxerga o mundo.
— Quando completou dezoito anos, a alegria transbordou. Pela primeira vez, passou a receber um salário e meio. Ainda era pouco para alguém que desejava vencer na vida, construir um futuro e conquistar seus próprios sonhos.
Ulisses fez uma breve pausa antes de continuar.
— Entretanto, não havia muitas escolhas. Meu pai precisava aceitar o trabalho que tinha e o salário que lhe ofereciam. Sabia que havia muitos homens dispostos a ocupar seu lugar. De certa forma, ter um emprego já era um privilégio.
Seu olhar tornou-se distante, como se acompanhasse as lembranças do pai.
— O trabalho, porém, não o realizava. Também não lhe proporcionava grandes aprendizados. Toda a sua capacidade parecia reduzida aos movimentos mecânicos exigidos pela produção. Repetia os mesmos gestos dia após dia, diante das mesmas máquinas, no mesmo setor.
Ulisses suspirou.
— Ele trabalhava, mas raramente era convidado a pensar. Não planejava, não criava, não desenvolvia a imaginação e muito menos explorava plenamente aquilo de que era capaz. Ainda assim, apesar de tantos limites, permanecia feliz.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Porque, para quem conhecia as dificuldades da vida, ter trabalho já era motivo de gratidão. Meu pai sabia disso. Enquanto muitos enfrentavam o desemprego e a incerteza, ele tinha um lugar para onde ir todas as manhãs. Talvez não fosse o emprego dos seus sonhos, mas era um começo. E, naquela época, um começo valia muito.
Além disso, embora o salário não fosse expressivo, continuava sendo uma conquista. Meu pai sabia o quanto era difícil encontrar trabalho e não se permitia desprezar aquilo que havia alcançado.
Ulisses fez uma breve pausa.
— Por outro lado, também sabia que o ritmo e as condições de trabalho cobravam um preço. As longas horas repetindo os mesmos movimentos traziam o risco de lesões. Às vezes, sua razão soprava um temor silencioso à consciência: e se o trabalho que deveria ajudá-lo a construir o futuro acabasse impedindo-o de alcançá-lo?
Seu olhar perdeu-se no horizonte.
— Mas a fé o sustentava. Meu pai acreditava que, com esforço e perseverança, dias melhores chegariam.
Um silêncio breve se instalou entre os dois.
— Infelizmente, existe uma verdade amarga em muitos ditados populares. A alegria, às vezes, parece durar menos do que deveria. Nesse momento, a voz de Ulisses tornou-se mais grave.
— Certo dia, quando tinha vinte e seis anos, meu pai percebeu que seu braço já não respondia como antes. Alguns movimentos haviam se tornado difíceis. Outros, simplesmente impossíveis. Assustado, procurou o responsável pelo setor e relatou o problema.
Respirou fundo antes de continuar.
— O diagnóstico não demorou. Para a empresa, aquilo significava uma queda na produtividade. E a queda na produção era algo que não estavam dispostos a aceitar.
Seus olhos abaixaram por um instante.
— Foi assim que Abdul perdeu o emprego. Não porque fosse um mau trabalhador. Não porque lhe faltasse dedicação. Pelo contrário, foi justamente o trabalho, repetido durante anos, que acabou lhe causando uma doença que limitava seus movimentos e reduzia sua capacidade de produzir.
Ulisses balançou a cabeça lentamente.
— A fábrica havia consumido parte de sua força e, quando já não podia entregar o mesmo rendimento de antes, foi deixado para trás.
— Sem trabalho, Abdul não perdeu apenas sua ocupação. Perdeu muito mais do que isso.
A voz de Ulisses tornou-se pesada.
— Primeiro veio a perda da renda. Depois, a perda do alimento suficiente para a família. Em seguida, a casa começou a se deteriorar, as contas se acumularam e o acesso à saúde tornou-se um luxo distante. A cada porta que se fechava, parecia que uma parte de sua humanidade era arrancada.
Fez uma pausa.
— A sociedade costumava dizer que o trabalho dignifica o homem. Mas ninguém parecia disposto a explicar o que acontece quando o próprio trabalho destrói a saúde de alguém e, depois, o abandona.
Inaiê manteve os olhos fixos no chão.
— Meu pai chorava quando nos via com fome. Chorava porque sabia que não podia nos oferecer a educação que sonhava para os filhos. E o mais doloroso era perceber que, além da pobreza, havia a humilhação. Na escola, muitas vezes éramos alvo de zombarias por causa das roupas gastas e da nossa condição.
Ulisses suspirou.
— Para sobreviver, Abdul começou a pedir esmolas e a procurar alimento entre os restos descartados pelos outros. Passou a disputar com cães e aves aquilo que sobrava do desperdício humano.
Seu olhar tornou-se distante novamente, pois a dor obscurecia sua fala, mas sua força era gigante.
— E, ainda assim, muitos diziam que ele deveria procurar trabalho. Falavam como se a miséria fosse uma escolha. Como se a doença não existisse. Como se alguém estivesse disposto a contratar um homem marcado pela pobreza, pela exclusão e pela perda da saúde.
O silêncio pairou por alguns instantes.
— Mas a tristeza ainda encontraria espaço para crescer.
Certo dia, meu pai encontrou antigos colegas da fábrica. Homens que haviam trabalhado ao seu lado por anos. Encontrou-os disputando um pedaço de presunto retirado de um saco de lixo próximo a uma lixeira.
A indignação atravessou sua voz.
— Naquele momento, percebeu que não era apenas ele quem havia sido descartado. Outros trabalhadores também haviam sido empurrados para a margem da sociedade.
— Quando perguntou o que havia acontecido, a resposta veio rápida. A fábrica havia adquirido máquinas mais modernas, mais rápidas e mais eficientes. Os homens já não eram necessários.
Ulisses permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Com o tempo, meu pai descobriu que a história era mais complicada do que parecia.
Seu olhar voltou-se para o horizonte.
— Os responsáveis pela fábrica afirmavam que a empresa enfrentava dificuldades cada vez maiores. A concorrência crescia. Outras indústrias produziam mais rápido, vendiam mais barato e ocupavam mercados que antes pertenciam à região. Segundo eles, as novas máquinas não haviam sido compradas por capricho. Diziam que eram necessárias para manter a fábrica viva.
Fez uma breve pausa.
— Meu pai nunca esqueceu o sofrimento dos trabalhadores que foram descartados. Mas também percebeu que o medo não existia apenas entre aqueles que estavam no chão da fábrica. Existia nos escritórios, entre administradores e proprietários que temiam ver o negócio ruir.
Uma brisa suave atravessou a vegetação.
— Foi então que um dos principais acionistas passou a defender a necessidade de maior representação política para a indústria local. Acreditava que a sobrevivência das empresas dependia de apoio governamental, incentivos e políticas capazes de protegê-las da crescente concorrência. Dizia que, sem isso, mais empregos desapareceriam.
Ulisses suspirou.
— Talvez acreditasse sinceramente no que dizia. Talvez estivesse apenas defendendo os próprios interesses. Meu pai nunca soube responder a essa pergunta.
Seu olhar tornou-se distante.
— O que sabia era que, naquele mesmo período, homens continuavam disputando restos de comida nas ruas enquanto outros disputavam votos e cargos públicos.
Fez uma pausa.
— Um ano depois, aquele acionista lançou candidatura para prefeito da cidade. Prometia empregos, fortalecimento da economia local e novas oportunidades para os trabalhadores. Distribuía cestas básicas, participava de eventos comunitários e aparecia sorrindo ao lado de crianças. A publicidade encarregou-se de transformá-lo em exemplo de generosidade.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
— Mas perdeu a eleição.
O silêncio pairou entre os dois.
— E a derrota não resolveu os problemas da fábrica. Os anos seguintes trouxeram dificuldades ainda maiores. As dívidas cresceram. Os desafios se acumularam. Até que chegou o dia em que os portões se fecharam definitivamente.
Ulisses abaixou os olhos.
— A empresa foi à falência.
O silêncio pairou por alguns instantes.
— Mas a falência não devolveu nada a ninguém.
Sua voz tornou-se mais baixa.
— Não devolveu a saúde dos trabalhadores que haviam adoecido. Não devolveu os anos que foram perdidos. Não devolveu as casas que desapareceram nem o sustento das famílias que dependiam daquele trabalho.
Respirou profundamente.
— Meu pai costumava dizer que a ruína da fábrica não apagava a ruína que já havia acontecido dentro de muitas vidas.
Seu olhar perdeu-se novamente ao longe.
— Com o tempo, ele passou a acreditar que a ruína de uma empresa raramente produz vencedores. Produz apenas novas formas de sofrimento.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
— Meu pai não conseguia compreender como uma sociedade podia permitir que tantos fossem esmagados entre interesses econômicos, disputas políticas e a luta diária pela sobrevivência. Tudo parecia se reduzir a um mundo de aparências.
O silêncio voltou a envolver os dois.
— Quando Abdul completou trinta e cinco anos, tornou-se notícia.
Ulisses fechou os olhos antes de continuar.
— A manchete dizia apenas: “Homem em situação de rua é queimado em praça pública.”
Respirou profundamente.
— Nenhuma linha falava da criança que havia sonhado com um futuro melhor. Nenhuma mencionava o jovem orgulhoso de seu primeiro emprego. Nenhuma recordava o trabalhador que perdera a saúde dentro da fábrica. Nenhuma dizia que aquele homem passara fome, perdera a casa e fora privado do acesso aos cuidados médicos.
Sua voz quase falhou.
— O jornal não dizia que seu nome era Abdul. Para a cidade, era apenas um morador de rua. Para as estatísticas, apenas mais um número. Para mim, era meu pai.
— O fogão a lenha nunca mais foi visto. Desapareceu como desapareceram minha mãe, meus irmãos e a vida que um dia conhecemos. As chamas se apagaram. Os sonhos se apagaram. As conversas se apagaram. E, no fim, percebi que meu pai não foi a única coisa que a pobreza levou. Levou também o lugar onde aprendíamos quem éramos.
Carlos Weinman possui graduação em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Rede Pública do estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: Estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.
