Calmon, a Fênix do Contestado: o voto de resistência na Terra Mutilada pelo Esquecimento Catarinense e Brasileiro
Por uma leitura crítica do território catarinense: contra o preconceito da mídia hegemônica, a pequena cidade da Região da Guerra do Contestado reafirma sua soberania popular e evoca mais de um século de luta por justiça e dignidade.
A urna como trincheira e a reação do elitismo regional
Quando as apurações eleitorais desenham o mapa político de Santa Catarina, a grande imprensa catarinense apressa-se em traçar um diagnóstico simplista sobre as dissonâncias do estado. Diante do resultado eleitoral no município de Calmon – que registrou maioria favorável ao projeto progressista -, veículos da mídia hegemônica regional reagiram com manchetes carregadas de estigmatização e preconceito de classe. Ao estampar matérias com títulos sugestivos como “Veja qual foi a única cidade da região que votou mais em Lula do que em Flávio” ou ao associar maliciosamente a escolha política local com crises de saúde – “Cidade mais lulista de SC já teve a pior taxa de vacinação contra a Covid-19” –, a imprensa burguesa renova um velho expediente de criminalização e deboche contra as populações sertanejas.
Trata-se de uma narrativa reativa que recusa aceitar a liberdade de escolha do eleitorado calmonense. Em um estado hegemonizado por forças ultraconservadoras de direita, qualquer manifestação eleitoral divergente é tratada não como exercício legitimo da democracia, mas como “anomalia” ou sinal de “atraso”. Todavia, o que a grande mídia apresenta como contradição é, em verdade, um ato de profunda ousadia e consciência histórica: o povo de Calmon votou com a cabeça erguida, acreditando na possibilidade real de transformação social pelo voto e recusando a tutela ideológica das elites que historicamente o marginalizaram.
O mito da abundância catarinense e a realidade de Calmon
A narrativa oficial promovida pelas elites políticas de Santa Catarina costuma vender o estado como um oásis de desenvolvimento homogêneo, inspirado em padrões europeus e imune às mazelas do restante do país. Essa construção ideológica silencia deliberadamente a existência de uma vasta faixa territorial marcada por índices de vulnerabilidade social acentuada, onde figuram diversos municípios com baixíssimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Calmon não é uma exceção isolada de “atraso”, mas sim um dos territórios mais atingidos por essa desigualdade estrutural.
Analisando a estrutura socioeconômica de Calmon, percebe-se a profundidade dessa dívida social:
Pobreza e Desigualdade: no Mapa de Pobreza e Desigualdade do IBGE, Calmon chegou a registrar uma incidência de pobreza de 43,5% da população, figurando como o quarto município com maior taxa de pobreza em Santa Catarina.
Desenvolvimento Humano: no ano de 2000, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de Calmon atingiu 0,427, posicionando o município na 289ª colocação entre os 293 municípios catarinenses da época.
Mortalidade Infantil e Saúde: em 2006, o município registrou uma taxa de mortalidade infantil de 31,3 óbitos por mil nascidos vivos, número vertiginosamente superior à média estadual de 12,6.
Estrutura Sanitária Mínima: quando matérias jornalísticas tentam ridicularizar os índices de vacinação ou saúde em Calmon, ocultam que o município conta apenas com postos de saúde básicos, não possuindo hospital, farmácia pública de alta complexidade ou laboratórios de exames.
Essa precariedade não deriva de incultura ou apatia de sua gente, mas do abandono sistemático perpetrado pelos governos estadual e federal ao longo de décadas.
Do massacre do Contestado à linha de pobreza: as raízes do abandono

Para compreender a resiliência e o voto de Calmon, é imprescindível avançar pela geografia e pela história. O território onde hoje se situa Calmon – originalmente chamado de Osman Medeiros e São Roque – foi o epicentro da Guerra do Contestado (1912-1916), uma das guerras civis mais sangrentas do continente americano, que resultou em mais de 20 mil mortes.
O processo de formação territorial da região é marcado pela intervenção violenta do capital estrangeiro e pela conivência do Estado brasileiro:
A Invasão Ferroviária e a Expropriação: a concessionária Brazil Railway Company, liderada pelo empresário estadunidense Percival Farquhar, obteve do governo federal a concessão de uma faixa de 15 quilômetros de terra de cada lado da linha férrea.
O Terror dos Pistoleiros: por meio de sua subsidiária Southern Brazil Lumber and Colonization Company, a empresa utilizou corpos de segurança privados e pistoleiros armados para expulsar à força e à bala milhares de famílias caboclas e posseiros de suas terras ancestrais, destruindo a Floresta com Araucárias e transformandoCalmon e suas vizinhas, em uma mar de pinus de poucos donos.
Resistência Cabocla: em setembro de 1914, os revoltosos do Contestado reagiram atacando Calmon e incendiando os depósitos de madeira da Lumber, transformando a vila em campo de batalha pela sobrevivência.
O Genocídio Estatal: o Estado brasileiro respondeu com o envio do Exército e de forças milicianas, promovendo um verdadeiro genocídio contra a população cabocla, estigmatizada pela imprensa e pelas oligarquias como “fanáticos”, “bandidos” e “vagabundos”.
A Linha Wenceslau Braz: o Acordo de Limites de 1916, assinado no Palácio do Catete, encerrou a disputa territorial entre Santa Catarina e Paraná, mas consolidou a chamada “Linha Wenceslau Braz” – uma verdadeira linha de pobreza geopolítica que confinou a população sobrevivente a indicadores sociais avassaladores, demonstrada pela tese de doutorado do autor desse artigo (Fraga, 2006).
Crescimento econômico sem desenvolvimento social

A análise geográfica e econômica do município revela outro paradoxo fundamental. Entre os anos de 2002 e 2006, o Produto Interno Bruto (PIB) de Calmon apresentou um crescimento acumulado impressionante de 180,3%, superando de longe a média de crescimento do estado de Santa Catarina (67,2%) no mesmo período.
Contudo, como demonstram as formulações teóricas sobre o desenvolvimento humano, o simples crescimento econômico não é sinônimo de desenvolvimento se não se traduz em equidade, expansão do emprego e melhoria real da qualidade de vida da população. A riqueza gerada pelo setor agroflorestal continuou concentrada, enquanto o estoque de empresas e postos de trabalho formais no município sofreu reduções sucessivas entre 2004 e 2008, mantendo a renda média salarial em patamares baixos.
Essa contradição evidencia que a lógica de mercado não foi capaz de reparar as feridas históricas do território de Calmon, tornando indispensável a presença do Estado por meio de políticas públicas redistributivas e sociais.
No que tange aos indicadores de desenvolvimento e ao perfil socioeconômico de Calmon, é fundamental destacar que o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é uma métrica oficial consolidada decenalmente pelo PNUD, IPEA e Fundação João Pinheiro a partir dos dados do Censo Demográfico do IBGE, mantendo-se como referência o IDHM oficial de 0,622 – enquadrado na faixa de Médio Desenvolvimento Humano-, o qual posiciona o município na 292ª colocação entre as 295 cidades de Santa Catarina. Esse índice reflete disparidades internas marcantes, sobressaindo-se a dimensão de Longevidade (0,779) e Renda (0,618), enquanto a dimensão Educação registra 0,500; contudo, quando analisados os dados consolidados do Censo Demográfico de 2022 e das estimativas do IBGE, observa-se que Calmon conta com uma população de 3.443 habitantes espalhada por uma vasta extensão territorial de 636,21 km² – o que gera uma reduzida densidade demográfica de 5,41 hab/km² -, além de registrar um PIB per capita de R$ 39.260,14 e uma notável taxa de escolarização de 99,38% entre crianças e jovens de 6 a 14 anos, demonstrando avanços significativos no acesso ao ensino fundamental básico a despeito das históricas carências de infraestrutura de saneamento nas áreas rurais e da forte dependência econômica voltada ao setor agroflorestal, ao extrativismo de madeira, à agricultura familiar e à gestão pública local.
Analisar estes indicadores socioeconômicos e humanos de Calmon é reconhecer, acima de tudo, a profunda dignidade e a capacidade de superação do seu povo, que, mesmo inserido num histórico de vulnerabilidade social avassaladora e tendo figurado durante décadas entre os municípios com os piores índices de miséria de Santa Catarina, ergueu-se com honra para construir caminhos de transformação real. A evolução refletida em dados como a taxa de escolarização básica de 99,38%, aliada ao fortalecimento progressivo da expectativa de vida e da renda local, não representa apenas estatísticas frias, mas vitórias comoventes de famílias trabalhadoras que, no coração do sertão catarinense, reivindicam o direito sagrado à cidadania e ao respeito de toda a nação. Numa pátria que se quer justa e soberana, olhar para Calmon é cultivar uma reverência profunda por cada brasileiro e brasileira daquela terra marcada pelas cicatrizes do Contestado, pois a sua trajetória recente demonstra que a verdadeira grandeza não se mede pelo fausto ou pelo aplauso das elites, mas pela resiliência inquebrantável de uma comunidade que recusa o estigma do esquecimento e afirma, com orgulho, trabalho e cabeça erguida, a sua inalienável dignidade humana e social.
Calmon: a Fênix que afirma sua dignidade no voto
A tentativa da mídia burguesa catarinense de ridicularizar o eleitorado de Calmon fracassa diante dos fatos históricos e sociais. O povo calmonense não votou por ignorância ou alienação; votou por memória, necessidade e esperança.


Em um território onde a terra foi manchada pelo sangue de seus ancestrais caboclos, onde o poder público historicamente só esteve presente por meio das armas da polícia e do Exército ou da negligência dos serviços essenciais, o ato de votar em um projeto de inclusão social e soberania popular representa uma afirmação categórica de cidadania.
Calmon é, com justiça, a Fênix do Contestado. Tal como a ave mitológica, renasceu das cinzas dos incêndios de 1914, da devastação promovida pela Lumber e do esquecimento promovido pelas elites políticas regionais. A escolha do eleitorado calmonense nas urnas expôs a coragem de um povo que recusa ser invisibilizado e que exige ser tratado com o devido respeito constitucional.
Mais do que apenas dignidade, o voto de Calmon demonstra soberania popular. Em vez de ser atacado por colunas jornalísticas elitistas, o município merece a atenção urgente dos governos estadual e federal, com a destinação de investimentos estruturantes em saúde, educação, habitação e geração de emprego. Calmon não precisa da piedade condescendente dos vencedores da história; exige reparações históricas e o direito sagrado de construir de forma autônoma o seu próprio futuro.
Cega pelo próprio elitismo, a mídia burguesa catarinense sequer se deu ao trabalho de pesquisar sobre Calmon: ignorou a realidade do município e desdenhou da memória do baiano ilustre que batizou esta acolhedora e soberana terra barriga-verde.
Enquanto a ignorância da mídia e o preconceito dos juízes virtuais acumulam a vergonha de escorrer ódio sem ao menos compreender a complexidade de Santa Catarina, Calmon permanece de pé – com a cabeça erguida, a força do seu povo e o acolhimento de sua gente -, provando que nenhuma cegueira elitista é capaz de apagar a dignidade de quem venceu o esquecimento.
Que o ódio destilado nas redes pelos analistas de ocasião fique registrado como o atestado de falência de uma mídia analfabeta de sua própria terra; pois, sobre as cinzas do preconceito, o que reluz em Calmon é a força indomável de uma comunidade hospitaleira que honra suas raízes, ensina o país a ser justo e afirma a sua inabalável soberania.
Viva a soberania e a dignidade da população calmonense!
Nilson Cesar Fraga, é Pesquisador do CNPq/PQ. Geógrafo. Professor no Curso de Geografia na Universidade Estadual de Londrina. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Coordenador do Laboratório de Geografia, Território, Meio Ambiente e Conflito – GEOTMAC/UEL. Professor no Programa de Pós-graduação em Geografia na Universidade Federal de Rondónia – PPGG/UNIR. E-mail: ncfraga@uel,br
