Formação de Agentes Populares de Saúde do Campo na Região da Fronteira com o Uruguai
O Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra-MST, realizou na região da fronteira com o Uruguai a primeira etapa do curso de formação de Agentes Populares de Saúde do Campo, um projeto do Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz desenvolvido pelo MST.
O projeto tem o objetivo de formar agentes populares de saúde a partir dos Movimentos Sociais, discutindo o conceito de saúde desde as realidades rurais e suas vulnerabilidades. O projeto já formou agentes em várias regiões e estados do Brasil, para trabalhar a saúde e debater as doenças que mais afetam a população, suas origens e possibilidades coletivas de viver e se alimentar de forma mais saudável, bem como, de cuidar da terra e do meio ambiente.
No Rio Grande do Sul o projeto terá turmas em 11 regiões organizativas do MST, com o objetivo de formar assentados/as da reforma agrária e fortalecer a organização nos seus territórios, “em torno do cuidado coletivo com a saúde, com a terra e com o meio ambiente” como destaca a PROMET do curso.
A Fronteira com o Uruguai conta com mais de 31 assentamentos, entre os municípios de Sant’Ana do Livramento e Rosário do Sul, e neste mês de agosto a turma reuniu 46 pessoas, homens, mulheres e crianças dialogando sobre os saberes, hábitos e sonhos que atravessam as vidas nos assentamentos. Neste encontro, os dias de formação foram envolvidos pela mística de quem produz e resiste na terra, pela organização coletiva dos momentos educativos e pelo cuidado com as crianças.
A primeira etapa contou com a assessoria da Vanessa Aguiar Borges, Militante do MST formada em história, da direção estadual do RS, ela dialogou sobre o programa agrário do MST, e as implicações da Reforma Agrária Popular para a organização dos assentamentos, os impactos do agronegócio para a saúde e para o meio ambiente. Ela destacou a formação histórica do Brasil, e como a reforma agrária clássica foi um requisito importante no projeto desenvolvimentista do capitalismo no mundo, e que esta visou sempre, garantir a manutenção e avanço do Capital no campo, sem transformar a estrutura agrária.

Sobre a construção histórica do Brasil, Vanessa destacou que temos uma forte herança colonial e escravista, que as leis, relações e projetos estão historicamente articulados com a manutenção da concentração da terra. O agronegócio se apresenta como sequência deste projeto para o campo, que desde a colonização viola os corpos e a cultura dos povos originários, dos negros e negras escravizados/as, e que mantem seu lucro na produção de monocultura, no desmatamento e no uso descontrolado dos recursos naturais.
Vanessa, olhando para horizontes possíveis de esperança e transformação, retomando a trajetória organizacional desde a criação do MST, trouxe para o debate a Reforma Agrária Popular como um caminho, ressaltando que essa luta atravessa e apresenta para a correlação de força um novo modo de viver no campo, pautado na agroecologia, e novas relações com a terra e a natureza, com uma produção diversificada e saudável baseada na cooperatividade.
A formação ainda contou com a participação do Educador formado em história, militante do MST, Tiago Sotili, que trabalhou sobre metodologias participativas, sobre a importância de aprofundar o conhecimento da realidade, sobre as relações sociais e de produção que se envolvem e que pautam a reprodução da vida. Como elemento central das relações e transformações coletivas, destacou o trabalho de base, e que para realizá-lo, é preciso compreender a realidade e também compreender os saberes populares que envolvem as comunidades.

Para realizar o trabalho de base, partindo da Educação Popular devemos compreender todos os seres humanos como detentores de saberes, respeitar e sistematizar esses saberes é importante, é memória, e necessariamente sua formação está ancorada na ação, deve ser processual, deve ser planejado com rigorosidade, e fazer o trabalho de base é uma posição de classe. Tiago destacou que como agentes populares de saúde, o trabalho de base é instrumento intrínseco da atuação.
Eduarda Müller, militante Sem Terra, médica integral comunitária formada na Escola Latino-Americana de Medicina na República Bolivariana de Venezuela, assessorou sobre o processo histórico da luta pela saúde pública no Brasil. Um momento marcado pela escuta atenciosa, por uma análise crítica sobre as condições e as desigualdades sociais que determinam a condição de saúde da população. Ela destacou as principais mudanças e leis que envolvem a saúde pública na história do Brasil, evidenciando a importância do SUS e das campanhas de saúde promovidas pelo mesmo.

A Saúde do campo deve ser, necessariamente, discutida junto da questão agrária, desde a análise histórica, até os próximos passos e processos a serem construídos. Viver bem e com saúde, passa pela alimentação saudável, mas também, pelos hábitos, condições materiais, relações sociais e culturais das famílias e da comunidade.
É importante ressaltar que o agronegócio não produz alimento, tem sua produção estruturada no uso intensivo de agrotóxicos, com relações de trabalho sem uso adequado de EPIs, pautado na monocultura e agora mais presente no Rio Grande do Sul a silvicultura, e com um projeto de desvalorização da produção camponesa e da diversidade, representa um risco a saúde pública, e também, na preservação do Bioma Pampa.
Nesse sentido, Eduarda apontou que trabalhar a saúde a partir do chão da vida das realidades nos interiores longínquos da região, é preciso amorosidade e sensibilidade para compreender e provocar debates profundos sobre as relações sociais e de produção no campo. E destacou ainda que produzir alimento, é o diferencial dos/as assentamentos/as da reforma agrária na região, e que isso é produzir saúde, mas a luta segue para que os alimentos produzidos pelas camponesas e camponeses cheguem nas mesas da classe trabalhadora, e diante disso, outras relações de poder, econômicas e culturais atravessam o debate de saúde.

Durante a formação, a professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Adriana Carla Dias Trevisan, apresentou os trabalhos realizados pelo Grupo de Pesquisa Ecologia dos Saberes em Agroecossistemas do Bioma Pampa – “Ecos do Pampa”, que desenvolvem as atividades a partir das plantas nativas, ela destacou duas, a “carqueja” e o “capim-limão”, que estão sendo estudadas e reproduzidas pelo projeto “FitoPampa: que propõe o uso de fitodefensivo como bioinsumo botânico com foco na conservação pelo uso do Pampa”. O momento contou com muita troca de conhecimento e reconhecimento do território, das espécies nativas e do uso delas em receitas caseiras, de chás e em outros usos, bem como, contou com uma introdução de como extrair e onde encontrar o princípio ativo nas plantas. Adriana destacou, como a biodiversidade e a adaptação natural das plantas podem contribuir na produção de alimentos, como insumo ou repelente natural contra insetos, tornando sua presença no território uma aliada nos fazeres das camponesas e dos camponeses.
Os dias de formação foram marcados por momentos de mística e cultura bebendo nas raízes e fazeres históricos da região. Em um dos espaços formativos foi assistido o documentário “Mulheres que Plantam a Terra“, produzido pelo A Fronte Jornalismo das Gentes, que conta a história de luta e resistência de mulheres assentadas em Sant’Ana do Livramento.

O momento foi marcado pela emoção, onde as camponesas e camponeses puderam reconhecer nos rostos, nos relatos, nas imagens as semelhanças da trajetória de luta, e o sentimento de fortalecimento, bebendo na história o esperançar coletivo.

Os 5 dias de formação foram envolvidos pelo cuidado com a vida, com as pessoas, com a terra e especialmente com as crianças, com um espaço pensado para elas, a ciranda infantil, com atividades pedagógicas e as acolhendo sempre que quisesem estar na plenária, pois são nelas e por elas que lutamos por um amanhã de justiça, saúde e igualdade.

Camponesa, militante da Pastoral da Juventude Rural (PJR), feminista classista, historiadora, mãe e Comunicadora Popular.
