Disputa política no Brasil
A política partidária nunca foi linear. É feita de caminhos cruzados, interesses diversos, contradições, alianças e rupturas. Nada há de estranho nisso. A política nasce justamente do conflito de projetos, da disputa por ideias e pelos rumos da sociedade.
O que se torna grave é quando, no interior dessa disputa, a dignidade humana deixa de ser limite e o crime passa a ser método.
No Brasil, a polarização parece ter chegado a um lugar sombrio. De um lado, projetos que colocam o Estado a serviço dos interesses do capital, ainda que sob diferentes formas e graus de moderação. De outro, a sombra crescente das milícias e do crime organizado, que pretendem transformar territórios, poderes e instituições em instrumentos de seus negócios e de sua lucratividade.
Não são, portanto, disputas iguais.
Não se trata simplesmente de duas ideologias em confronto, de dois projetos políticos que disputam, em condições semelhantes, o coração da sociedade. Há uma diferença que não pode ser apagada pelo discurso fácil da polarização.
De um lado, está a disputa pelo Estado e por seus rumos, ainda que marcada pelas contradições e pelos limites de uma sociedade submetida à lógica do capital. De outro, está a ameaça de que o próprio Estado seja capturado por interesses criminosos, pela violência organizada e pelo poder econômico que dela nasce.
A democracia pode ser contraditória, pode ser injusta, pode carregar dentro de si as marcas profundas das desigualdades. Mas sua razão de existir continua sendo a liberdade, a dignidade humana e a construção do bem comum.
O crime, ao contrário, não disputa para construir direitos. Disputa para controlar, submeter, lucrar.
Por isso, talvez seja preciso olhar para além da fumaça da polarização. Nem toda disputa é entre iguais. Nem todo conflito coloca frente a frente projetos equivalentes. Há momentos em que a escolha deixa de ser apenas entre partidos, programas ou ideologias.
É quando se decide se o Estado continuará sendo espaço público – imperfeito, contraditório, disputado – ou se será transformado em território de negócios privados, de violência e de poder criminoso.
No fundo, a disputa é também sobre isso:
quem governará o medo, quem administrará a esperança e para quem existirá o Estado.
Porque quando o crime veste a roupa da política, já não estamos diante apenas de uma disputa pelo poder.
Estamos diante da disputa pelo próprio sentido da democracia através de Lula, ou das milícias, das facções e do crime organizado, através de Flávio Bolsonaro.
27 de setembro de 2026.
Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre
Ivan Cesar Cima
Cimi Sul – Equipe Norte RS
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
