A primavera chora

Roberto Liebgott
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A primavera retoma seu ciclo, mas não chega alegre. Vem molhada de chuva, assustada pelos ventos, com lágrimas a encher os olhos.

Os dias não nascem em esplendor; nascem sufocados por enchentes, vendavais, deslizamentos e medo.

Rios assoreados transbordam; as águas que antes irrigavam a vida agora carregam lama, árvores, casas, memórias e sonhos.

O céu ronca, os raios rasgam a escuridão e as aves, mesmo tristes, cantam — porque cantar é seu dom e talvez sua última esperança.

As flores parecem pálidas. Até os beija-flores voam desorientados, enquanto as abelhas procuram o pólen e encontram apenas umidade.

Não é a primavera que mudou. Não é a chuva que tem culpa. Não são os rios que se revoltaram.

Fomos nós.

Foram nossas mãos, nossa ganância e nossa fome de possuir que feriram a Mãe Terra.

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E agora ela responde — não com vingança, mas com sinais.

A terra geme, os rios transbordam, as florestas ardem e o céu parece se fechar.

E a primavera, que chegava rindo e cantando, trazendo poesia, agora chora.

Haverá tempo de escutar seu pranto?