A primavera chora
A primavera retoma seu ciclo, mas não chega alegre. Vem molhada de chuva, assustada pelos ventos, com lágrimas a encher os olhos.
Os dias não nascem em esplendor; nascem sufocados por enchentes, vendavais, deslizamentos e medo.
Rios assoreados transbordam; as águas que antes irrigavam a vida agora carregam lama, árvores, casas, memórias e sonhos.
O céu ronca, os raios rasgam a escuridão e as aves, mesmo tristes, cantam — porque cantar é seu dom e talvez sua última esperança.
As flores parecem pálidas. Até os beija-flores voam desorientados, enquanto as abelhas procuram o pólen e encontram apenas umidade.
Não é a primavera que mudou. Não é a chuva que tem culpa. Não são os rios que se revoltaram.
Fomos nós.
Foram nossas mãos, nossa ganância e nossa fome de possuir que feriram a Mãe Terra.
E agora ela responde — não com vingança, mas com sinais.
A terra geme, os rios transbordam, as florestas ardem e o céu parece se fechar.
E a primavera, que chegava rindo e cantando, trazendo poesia, agora chora.
Haverá tempo de escutar seu pranto?
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
