A Escuta do Espírito


Por onde anda o Espírito a ser escutado?
Estaria no silêncio do quarto, ou na meditação em frente ao altar de uma Igreja vazia?
Estaria na solidão da sala fria, ou na sacristia, ou, ainda, na fumaça do incenso perfumado de nostalgia?
Estaria sobre o púlpito da paróquia, admirando pessoas ajoelhadas, em geral – todas elas – convertidas e confortadas?
Ou, talvez, o Espírito tenha emudecido, retirando-se dos espaços de conforto, migrando para além das estruturas que encarceram e cegam?
Sim, talvez o encontremos nas frestas que ainda se abrem, apontando as saídas, querendo desacomodar-nos, libertando-nos das pesadas túnicas.
Talvez o Espírito fale através dos olhares daquelas e daqueles que reclamam alguns gestos de fraternidade, uma mão gentilmente alcançada.
Das pessoas que queiram um abraço, uma palavra, uma parceria, que caminhe ao lado – de braços dados – cruzando as fronteiras dos preconceitos e das intolerâncias.
Talvez o Espírito fale através da dor de pessoas que nada tem, que vivem no desabrigo, desesperadas por não saberem para onde ir, onde trabalhar e o que comer.
Talvez o Espírito fale pelas faces enrugadas e deprimidas daquelas e daqueles que não escutamos, porque nos provocariam a abandonar a preguiça enclausurada nas estruturas que nos prendem.
Talvez o Espírito seja encontrado nas florestas em chamas, nas águas poluídas, nas enchentes, nas crises humanitárias, quando de lá grita, mas desatentos e desatentas não escutamos.
Talvez o Espírito se manifeste exatamente naqueles lugares onde nunca nos encontramos, onde há os pobres com suas dores, sofrimentos e desalentos.
Talvez o Espírito fale, mas não o escutamos porque nos acomodamos atrás das portas de Igrejas presas em si mesmas, com seus hábitos, costumes e tradições, abrindo-se apenas nos horários de expediente.
Porto Alegre (RS), 07 de julho de 2025.

Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.