Memórias Amazônicas
Veio, ao entardecer, a brisa soprada do rio antigo, que passa ao lado – quase silencioso – mas carregado de mística.
À beira da calçada, o braseiro aceso; sobre a grelha, o peixe aberto, uma fumaça que sobe lenta, carregada de aromas.
Despertam-me lembranças: memórias das ruelas, varandas e quintais tomados pelo cheiro da brasa, misturando-se ao frescor do rio.
Risos atravessam as praças, pessoas alegres vão, vêm e, enquanto o fogo doura o peixe, vê-se a farinha na cuia, a pimenta-de-cheiro e o tucupi morninho, como promessa de partilha.
A brisa da noite amazônica leva a fumaça, mas traz de volta as histórias conduzidas pelo rio: o pescador e suas redes, a força das mulheres ribeirinhas, o boto e suas malandragens, a saudade encravada no tempo.
Enquanto o peixe chia, a memória arde – mansa e perfumada – como se o passado tivesse aroma
de peixe, de água, de terra, de encontros e de sonhos guardados numa natureza que ainda resiste.
Porto Alegre (RS), 11 de fevereiro de 2926.
Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
