Oeste do Paraná: As plantas que curam são ancestralidade Guarani

Claudia Weinman
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Antes de escutar a voz de João Alves, o Joãozinho – Mirim Joetavy, bem ao fundo se percebe o som dos acordes Guarani. A melodia significa o preparo para a chegada dos parentes vindos de outros territórios para a Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, no estado do Paraná. Ali se concretizou, antes de findar setembro, a troca de mudas, sementes e conhecimentos ancestrais. O batizado das ervas – o Pohã Karaí – reuniu desde os líderes espirituais guarani do Brasil, Argentina e Paraguai, os rezadores mais antigos, até as crianças e jovens, professores, aprendizes de um novo tempo, o Kairós, vital para a futuro onde a cultura da vida dos povos indígenas seja preservada, mantida e respeitada.

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O encontro proporcionou a troca que nos leva a pensar, a partir das palavras da liderança: “Se produzir, não acaba”. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

João teve a voz colhida, assim como fazemos com as plantas e frutos, pela ação e companheirismo da Osmarina de Oliveira, que é missionária do Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul (CIMI Sul) e do Clovis Brighenti, professor e pesquisador da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e membro do CIMI Sul. Uma troca que nos leva a pensar, a partir das palavras da liderança: “Se produzir, não acaba”, de um ensinamento que não se perde de vista, nem da memória de quem acredita em uma vida possível.

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João Alves aparece na imagem, fazendo a doação de sementes (à esquerda). Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

Mas o Joãozinho, assim também chamado, só esteve no Ocoy, porque o Daniel Maraca Miri Lopes esteve à frente da organização dessa grandiosa atividade, gigante em sentidos e saberes milenares. Daniel é uma importante liderança guarani e conta que a Tekoha Ocoy foi fundada em 1982, mas antes disso, os ancestrais viviam às margens do Rio Paraná, as mesmas margens sucumbidas pela construção da hidrelétrica da Itaipu Binacional. Ali, a pedra que canta guarani gritou bem alto no leito do Paraná. O despejo forçado serviu de resistência para quem no futuro, que agora se faz presente, se reúne em defesa de uma história em movimento.

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Imagem: Arquivo Cimi Sul.

Nos 231 hectares, pelas vivências das 220 famílias, que somam mais de 800 guarani, o batismo das ervas se fez na Ocoy, pela primeira vez.

“O batismo da planta sagrada, as trocas de sementes, a reunião dos líderes espirituais da Argentina, Paraguai, e das aldeias próximas, trouxeram uma experiência valiosa. Na nossa cultura o mês de setembro é ano novo e todas as plantas e coisas que nascem na terra florescem nesse período”, explicou Daniel.

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Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

O ano novo/ Ara Pyahu é a cerimônia necessária para se plantar a semente, as frutas, os remédios, e para que a chuva não falte. “Nós pedimos que Deus cuide da semente, da planta. Nesse encontro que fizemos em setembro, muitas sementes foram trazidas, variedades de milho, feijão, amendoim, ramo de mandioca. Todos levaram algo para plantar e na próxima atividade, muitas outras variedades de sementes serão trazidas com certeza”, disse.

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O ano novo/ Ara Pyahu é a cerimônia necessária para se plantar a semente, as frutas, os remédios, e para que a chuva não falte. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

A colheita há de ser boa pelo tanto de troca feita. O reencontro das mudas de plantas diversas, certamente será bonito de ver. Setembro renovou as sementes originárias, o cuidado com a casa comum, mostrando ainda, um contraponto importantíssimo ao mercado das sementes, a indústria do lucro e da violência que historicamente afeta os Avá-guarani. O depoimento sobre a cura que nasce da terra e, é respeitada pela sabedoria indígena, confirma o que o rezador Joãozinho defende, de que é preciso ir à fundo e proteger a mãe-terra.

“Hoje as pessoas sofrem mais, falam sobre açúcar no sangue, a diabete, problemas de próstata, pedra na vesícula e câncer.  Talvez o pessoal procura muito, mas a cura está na natureza. Eu curei uma pessoa que estava fraca da visão, fiz remédio e hoje está forte, enxergando melhor, com remédio de pingar no olho”, revelou.

Não adianta procurar a cura aonde não tem. Ela é preservada na memória dos rezadores, que carregam a bagagem de seus ancestrais. “Aprendi com meu pai, e com meu tio. Fui passear na casa dele e ele falou – eu vou te mostrar o remédio para você curar tua família, as pessoas – e eu aprendi. Está guardado na memória, e estou praticando”.

A medicina é a disciplina maior da mãe-terra para os guarani. A natureza possui todo alimento, chá, com suas plantas e diversidades. Ela tem tudo:

“A natureza já vem com essa sabedoria. O conhecimento vem da natureza, quando se destrói a natureza, tudo se perde”, reforçou o rezador.

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Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

 Pohã Karai: a importância do batizado das ervas

Pohã Karai está relacionado com o sagrado, o respeito com as plantas, um ritual imprescindível de batismo das ervas, para que Nhanderu acolha os pedidos de proteção à terra, enviando chuva e sol na medida certa, abençoando as plantas para que possam se reproduzir bem e, a partir disso, curar e alimentar as pessoas. Essa explicação foi dada pelo professor Clovis Brighenti, que ainda destacou as três plantas consideradas sagradas para os guarani: a erva-mate, o cedro e pindó – a palmeira de jerivá.

Outro elemento destacado pelo professor Clovis é a bebida de cauim, feita a base de milho moído, cozido com água, sem adição de açúcar ou sal, preparado na gamela de cedro, consumido, segundo ele, nos rituais, como parte sagrada dessa atividade feita a partir do conhecimento ancestral dos/as rezadores/as. Para o professor, a junção de todos esses elementos fortalece o vínculo dos guarani com as plantas, já que, conforme ele, esses povos carregam um vínculo estreito com a mata e a própria agricultura.

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a bebida de cauim, feita a base de milho moído, cozido com água, sem adição de açúcar ou sal, preparado na gamela de cedro. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

A agroecologia na visão dos guarani

Com o Pohã Karaí, além das lideranças indígenas se encontrarem, o compartilhamento de uma variedade de plantas e mudas se fez. O rezador Joãozinho celebra esse momento.

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Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

“A gente chega e sai com alegria, de poder reencontrar alguma semente que não está mais dentro da aldeia. Isso é o principal”.

O depoimento da liderança vai de encontro ao que o professor Clovis nos ensina, sobre o sentido da agroecologia para os povos indígenas, a qual tem significado um tanto quanto diferente do que é compreendido pela sociedade não-indígena. “Para os guarani o que está no centro das importâncias é a relação saudável com as plantas e não apenas a produção, mas o reconhecimento da sacralidade das plantas. Por isso, também, se faz o ritual de batizado das ervas, pedindo proteção às plantas, para que essas recebam todo o cuidado e tenham condições de exercer as funções curativas e de alimentação para as quais foram criadas”, explicou.

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Diálogo entre o professor Clovis e participantes do encontro. Foto: Osmarina de Oliveira.

Por essa razão, Clovis defende a continuidade desses encontros para o fortalecimento das práticas milenares, que formam, segundo ele, a base do conhecimento ancestral.

“O ritual é como se fosse uma ação pedagógica de revitalização e fortalecimento em uma dimensão que é central na vida desse povo. Sem esse vínculo, eles perdem a parte central da vida deles”, enfatizou.

O professor também acredita, com base em seus estudos e vivências com os povos indígenas, que o entendimento dos guarani sobre as plantas é de que elas são tão importantes quanto os seres humanos. “As plantas têm espírito, portanto, estão no centro da vida nos rituais, precisam de cuidado e serem respeitadas como os seres humanos”.

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Além da partilha das plantas e mudas, aconteceu o intercâmbio de lideranças de diversos territórios do Brasil, Paraguai e Argentina. Foto: Osmarina de Oliveira.

Além da partilha das plantas e mudas feitas por esse intercâmbio de lideranças de diversos territórios do Brasil, Paraguai e Argentina, Osmarina de Oliveira, missionária do Cimi Sul, destacou que algumas dessas plantas sagradas foram trazidas para o encontro a partir do Horto Municipal de Foz do Iguaçu, e também, de outros parceiros.

“As mulheres Camponesas trouxeram sementes para partilhar, também parte da delegação não-indígena que possui horta na cidade acabou contribuindo. O encontro possibilitou essa relação solidária e teve quem colheu conhecimento desses momentos, como os alunos da Unila, que são do Equador, do Brasil, de diferentes cursos, professores de história, de relações internacionais, enfim, todo mundo levou consigo um pouco da sabedoria que os avá-guarani puderam transmitir”.

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O remédio, a semente, é para usar dentro da família, da comunidade, não é para ganhar dinheiro. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

Com tantas trocas feitas, é possível compreender o que o rezador busca ensinar quando diz que o valor disso tudo não é monetário, mas que as hortas, o cultivo, a relação com a sacralidade das plantas, sementes e mudas é para que a vida na sua complexidade possa existir sem sofrimento.

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“O remédio, a semente, é para usar dentro da família, da comunidade, não é para ganhar dinheiro. A natureza é viva, precisa ter saúde”, acrescentou o rezador que fechou sua fala mencionando a importância de apoio de governos e instituições para financiarem esses encontros. “Precisamos ter a valorização da nossa cultura originária, ter mais encontros, melhorar as casas de rezas, pois elas abrem os nossos caminhos”.

A continuidade do encontro na prática cotidiana dos guarani

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Para os guarani o que está no centro das importâncias é a relação saudável com as plantas e não apenas a produção. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

Permanecer, resistir, devolver para a terra sementes de sabedoria que fora dividida durante a “cura das ervas”. O ano novo guarani que chegou com setembro, agora tem sua continuidade na renovação do território, com o início do preparo do solo, a escolha das plantas, para guiar, logo mais à frente, a história guarani. Não apenas para alimentar, o que também se faz necessário, mas principalmente, para manter viva a cultura e a relação dos povos com suas raízes ancestrais.

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Daniel Maraca Miri Lopes vive na Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu e coordena os trabalhos com a horta. Foto: Osmarina de Oliveira e Clovis Brighenti.

Daniel, a liderança que mencionamos lá no início desta reportagem, e que vive na Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, é quem passa as informações sobre a horta que surgiu no território a partir de uma oficina com jovens indígenas e ali se debateu a produção de mais alimentos para a comunidade, além de remédios. “Tivemos a ideia de cercar pequenos espaços e plantar variedades de sementes para a comunidade”, disse.

Ele também relatou que neste momento estão fazendo o preparo do solo, cercando o local, algo necessário para proteger das aves domésticas, devido ao pouco espaço.

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Neste momento está sendo realizado o preparo do solo. Foto: Daniel Maraca Miri Lopes.

“Vamos chamar toda a vizinhança, as crianças, para plantar as variedades de sementes tradicionais. Depois vamos plantar remédios tradicionais, frutas, e ter experiência para cada vez melhorar. Esse será um novo modelo de produzir alimento para comunidade”.

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Foto: Daniel Maraca Miri Lopes.
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As primeiras mudas começam a fazer parte da horta. Foto: Daniel Maraca Miri Lopes.

Nesse território, onde a horta está sendo organizada, com apoio de organizações como o próprio Cimi Sul, existe muita resistência e vontade de garantir que a cultura e a memória do povo guarani sejam resguardadas e respeitadas. Daniel inclusive traz um resgate histórico de que seus ancestrais viviam à margem do rio Paraná, e que todo aquele território se encontra debaixo das águas pela construção da hidrelétrica da Itaipu Binacional. “Morava muita gente, famílias, mas devido a situação da Itaipu, a pressão, amedrontamento, muitas famílias foram para o lado do Paraguai, da Argentina e brasileiro também. É uma grande luta estarmos aqui hoje, resistindo, por isso precisamos da horta e garantir a nossa cultura e a nossa sobrevivência”.

O professor Clovis também comenta sobre a existência guarani nesse território e a resistência entranhada no cotidiano das famílias.

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Centro da aldeia Ocoy/Jacutinga, 1979, nas margens do Rio Paraná. Imagem: Arquivo Cimi Sul.

“Existe a negação da existência dessa população e um esbulho territorial do povo guarani. Nos anos de 1970, os guarani que restaram no Oeste do Paraná se concentravam às margens do rio Paraná, trabalhando para agricultores e fazendeiros, e suas aldeias se concentraram em terras públicas às margens do rio.  Mas com a construção da Itaipu Binacional, nos anos de 1970, início dos anos de 1980, esses últimos redutos, refúgios, foram afetados pelo represamento do rio Paraná e a formação do lago da hidrelétrica de Itaipu, que evidentemente não reconheceu o direito dessas populações”.

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O milho crioulo já cresce na pequena horta. Foto: Daniel Maraca Miri Lopes.

Hoje, a esperança se mostra viva em cada pé de milho crioulo que cresce na pequena horta, em cada sonho guarani, que revira a terra e chama por Nhanderu para que no tempo certo, não apenas a chuva ou o sol apareçam, mas que o direito ao território represente de fato um passaporte para a justiça concreta, a liberdade da existência e o respiro de quem nasce para ser feliz.

Confira mais fotos do encontro:

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