Reflexões cotidianas: LEMBRAR para que NUNCA MAIS ACONTEÇA!
No reencontro com minhas escritas, lhes convido a pensar em uma coisa que sempre mexeu muito, doeu muito, e me indigna sempre.
Como professora de História, é meu dever ensinar os estudantes sobre o que é Ditadura, e como foi esse período no Brasil e na América Latina. Tenho planejado aulas sobre, conversado com a gurizada, ouvindo músicas e lendo. E cada vez mais acredito que é essencial lembrarmos de forma coerente como foi todo esse processo para que não corremos o risco de que se repita algo similar.
Passasse os anos e ainda estamos mais uma vez com a mesma afirmação. É IMPORTANTE LEMBRAR (da forma correta) PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA!
Dia 30 de abril, fez 62 anos da instauração do regime antidemocrático autoritário que o Brasil teve o horror coletivo de presenciar durante 21 anos em sua História. Talvez para muitos de nós que hoje estamos vivos não seja algo tão pertinente, talvez…, mas cada vez que falo sobre esse assunto com alguém, parece que ninguém lembra, ninguém viu, ninguém sabe…e isso é preocupante. Porque abre parênteses para que aconteça novamente.
Segundo os números do Observatório Nacional de Direitos Humanos, tivemos em nosso país mais de 50 mil pessoas perseguidas, mais de 20 mil pessoas torturadas, quase 2 mil camponeses mortos e desaparecidos, mais de 400 desaparecidos políticos e mortos, mais de 600 professores e estudantes perseguidos ou mortos, mais de 8 mil indígenas mortos. Mas esses números não estão estáticos, eles continuam a contagem das violações que ainda não soubemos, anualmente esses dados são atualizados.
Aqui vale lembrar que somente em 1979 foi criada a Lei da Anistia, e a Comissão da Verdade criada entre 2011-2014, que investigou as violações ocorridas entre 1946-1988 que resultou em um relatório imenso de mais de 4 mil páginas.
As ditaduras de todo o mundo são cruéis, violam, suprimem, restringem todo e qualquer Direito Humano individual e coletivo; no Brasil não foi diferente. Muitas famílias até hoje não sabem onde estão os seus filhos que foram assassinados pelos generais durante esses anos ditatoriais.
Precisamos considerar que o nosso país tem dimensões continentais, há muita coisa que aconteceu nas capitais que aqui no interior onde moramos, por muitas vezes não é sentido, mas com toda certeza uma bruma leve com esses ares sempre chega nas terras mais distantes. Conheço uma professora da Universidade Federal de Pelotas, Alessandra Gasparotto, que estuda e escreve sobre a ditatura no Campo, em nossas terras camponesas, nesse território rural que nos parece que não aconteceu, que nunca teve repressão. Vale a pena ler suas escritas.
E há quem diga, que isso não aconteceu.
Queria dizer, a todas as professoras (e professores) de História, que não sejam incoerentes, não mintam para os seus alunos só porque vocês não concordam com as coisas, a formação da consciência deles é no processo em movimento, não atrapalhem isso. Porque tenho visto colegas que defendem as ditaduras, que defendem o bolsonarismo, que defendem a violação dos Direitos Humanos, e isso tudo não é só antiético, é anti-humano, é incoerente, e no mínimo irresponsável, porque para sermos professores, em especial os de História, há que ter compromisso com a História, com a luta dos povos e com nosso diploma, porque senão não passamos de cúmplices.
Que nossos filhos não precisem se esconder, se exilar, fugir, por conta das imposições políticas de ninguém, e por isso hoje se faz necessário que falemos a verdade. E gritamos em voz alta: – DITADURA NUNCA MAIS!
Historiadora, mãe e Educadora Popular, possui Licenciatura em História pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e o Instituto Técnico de Educação e Pesquisa da Reforma Agrária (ITERRA). Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Doutoranda em Educação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
