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Colheita

Colheita

Roberto Liebgott
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Colheita

Depois da semente lançada,
depois de germinar no ventre da terra,
a planta cresce.

É cuidada, vigiada, protegida,
para que os frutos venham saudáveis, abundantes.

E então, maduros,
a colheita deveria ser
imagem de fartura,
de alegria,
de encontro,
de partilha justa e necessária.

Mas há o capital.
Há o comércio.
Há o lucro.
Há a voracidade.

Há a pretensão de arrancar da terra
mais do que ela oferece gratuitamente.

Colher e vender tornam-se obsessão.
E o lucro, promessa fácil,
gera ambição.

Depois dela, os venenos, a transgenia, a produção sem limites.
E, a gritante exploração.

A escravidão – disseram – havia terminado.
Na lei, talvez.
Na consciência, não.

Ela persiste,
na sanha do ganho farto e rápido,
na degradação do trabalho,
no corpo dos mais pobres:
indígenas, quilombolas,
gente arrancada de seus lugares,
do Norte, do Nordeste,
de além das fronteiras.

A fruta, que deveria ser doce,
torna-se amargo fel.

É dor.
É exaustão.
É degradação.

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É o gosto cruel das colheitas –
da maçã, da uva, da azeitona,
e de tantos outros frutos da terra.

Não há controle suficiente.
Há pouca fiscalização.
Há promessas.

Enquanto isso,
alguns enriquecem
à custa
do suor, da dor
e sofrimento dos que seguem oprimidos
pelas chibatas
da escravidão.

Porto Alegre (RS), 23 de março de 2026.

Roberto Liebgott

Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.