Colheita
Colheita
Depois da semente lançada,
depois de germinar no ventre da terra,
a planta cresce.
É cuidada, vigiada, protegida,
para que os frutos venham saudáveis, abundantes.
E então, maduros,
a colheita deveria ser
imagem de fartura,
de alegria,
de encontro,
de partilha justa e necessária.
Mas há o capital.
Há o comércio.
Há o lucro.
Há a voracidade.
Há a pretensão de arrancar da terra
mais do que ela oferece gratuitamente.
Colher e vender tornam-se obsessão.
E o lucro, promessa fácil,
gera ambição.
Depois dela, os venenos, a transgenia, a produção sem limites.
E, a gritante exploração.
A escravidão – disseram – havia terminado.
Na lei, talvez.
Na consciência, não.
Ela persiste,
na sanha do ganho farto e rápido,
na degradação do trabalho,
no corpo dos mais pobres:
indígenas, quilombolas,
gente arrancada de seus lugares,
do Norte, do Nordeste,
de além das fronteiras.
A fruta, que deveria ser doce,
torna-se amargo fel.
É dor.
É exaustão.
É degradação.
É o gosto cruel das colheitas –
da maçã, da uva, da azeitona,
e de tantos outros frutos da terra.
Não há controle suficiente.
Há pouca fiscalização.
Há promessas.
Enquanto isso,
alguns enriquecem
à custa
do suor, da dor
e sofrimento dos que seguem oprimidos
pelas chibatas
da escravidão.
Porto Alegre (RS), 23 de março de 2026.
Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
