Em memória de Estevam Garai

Claudia Weinman
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Em memória de Estevam Garai

Um sopro de vida às margens

Estevam Garai.

Da beira da estrada.
Dos barracos de lona.
Da chuva que invade,
do barro que prende os pés,
do frio que atravessa os ossos.

Das dores mais profundas.
Da solidão mais antiga.
Das noites mais longas.
Das manhãs mais frias.

Tratado como descarte.
Como quem não importa.
Como se fosse ninguém.

Porque é assim que o poder costuma olhar
os que vivem às margens:
como gente de terceira categoria,
indigna de investimento,
indigna de cuidado,
indigna de futuro.

E quando levantam a cabeça,
quando defendem a própria vida,
são chamados de sujos,
perigosos,
brutos,
violentos.

Primeiro lhes negam a dignidade.
Depois os culpam por resistirem.

Estevam das mãos firmes,
calejadas pelo trabalho.
Mãos que teciam,
que esculpiam,
que sustentavam a vida,
mesmo quando a vida parecia desistir.

Estevam do sorriso acolhedor.
Da palavra mansa.
Do afeto repartido.
Da esperança que insistia
onde tantos só enxergavam abandono.

Morreu como viveu:
às margens.

Mas ninguém deveria nascer,
crescer,
envelhecer
e partir
condenado às margens da estrada,
às margens da sociedade,
às margens da humanidade.

Ali estiveram também seus parentes.

Seu Adolfo.
Seu Sebastião.
Dona Laurinda.
E tantos outros.
Tantas outras.

Homens e mulheres que atravessaram a vida
sem conhecer o que é existir
fora das cercas da exclusão,
fora do abandono imposto,
fora do desprezo que insiste
em decidir quem merece viver.

Mas a história não terminará com eles.

Haverá resistência.

Bonita.
Corajosa.
Necessária.

Quando um povo decide caminhar
na direção contrária do esquecimento.

Ergue os nomes dos antigos.
Resgata suas memórias.
Faz da dor um lugar de encontro.
Da lembrança, uma força.
Da identidade, um caminho.

Porque um povo permanece vivo
quando seus ancestrais continuam caminhando
na memória dos que ficaram.

Que o nome de Estevam Garai
não permaneça apenas como lembrança
de um homem que viveu às margens.

Que seja também um chamado.

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Para que nenhum outro indígena
precise morar entre o asfalto e o abandono.

Para que nenhum outro ancião
seja tratado como descartável.

Para que a dignidade deixe de ser promessa.

Para que os direitos sejam reconhecidos em sua plenitude,
e não apenas pela metade.

Mesmo quando as autoridades insistem
em não enxergá-los.

Enquanto houver memória,
haverá presença.

Enquanto houver coragem,
as margens deixarão de ser destino
e se tornarão apenas a lembrança
de um tempo que jamais deveria ter existido.

Mas há vidas
que o esquecimento
não alcança.

Estevam permanece
no sopro da memória,
nos passos de seu povo,
na ternura dos que o conheceram,
na coragem dos que continuam
transformando as margens
em caminho.

Porque a memória,
quando se faz luta,
é também
um modo de vencer a morte.

Porto Alegre, 4 de julho de 2026.

Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre