Homenagem aos Xamõi, as Kunhã Karaí e às Memórias Vivas do Povo Mbya Guarani
No tempo em que os dias parecem acelerados e a memória se torna quase esquecida, partem os Xamõi e as Kunhã Karaí: anciãos e anciãs de palavras intensas, raízes que não sucumbem, expressões vivas de um povo que nunca se rendeu.
No dia 16 de abril, às vésperas da Semana dos Povos Indígenas, partiu o Nhande Ramõi Verá Roque, aos 106 anos de idade. Nasceu em Santo Ângelo e viveu seus últimos anos em Santa Maria, depois de atravessar mais de um século de dores e esperanças.
Ele viu de perto as marcas da colonização, os tempos duros da política integracionista, a sombra da ditadura e as violências lançadas contra seu povo. Ainda assim, permaneceu de pé, como árvore antiga que resiste aos ventos mais severos.
Com ele, e com tantos outros e outras que já seguiram viagem, parte uma geração moldada na luta, no silêncio carregado de sentido, na coragem de seguir andando quando tudo parecia querer impedir o caminho.
Mas os Xamõi e as Kunhã Karaí não se vão por inteiros. Ficam nos caminhos abertos por seus passos. Ficam nas histórias contadas ao redor do fogo. Ficam nos conselhos ditos em voz calma. Ficam nas rezas que ainda sobem ao céu. Ficam na força que despertam nos mais jovens.
Recordamos também o Xamõi Adolfo, seu Turíbio, seu Sebastião, seu Benito, seu Mandjor, e a querida Kunhã Karaí Laurinda. Guardiões e guardiãs da memória, vidas inteiras dedicadas a sustentar o povo em tempos difíceis.
Foram homens e mulheres que conheceram expulsões, preconceitos, estupros, abusos, perdas e ameaças. Viram cercarem a terra e tentarem calar a língua. Mas, mesmo diante do que parecia quase insuportável, foram palavras fortes, boas, sinceras e esperançosas.
Eles e elas não aceitaram o esquecimento. Onde quiseram apagar a cultura, reacenderam a chama. Onde semearam medo, plantaram coragem. Onde impuseram dispersão, reuniram famílias e fortaleceram comunidades.
Sabiam que a terra não é posse: é mãe, é ventre, é casa, é espírito, é futuro. Sabiam que defender o território é defender a tekoá, a continuidade do povo e o direito de existir segundo seus próprios modos de ser.
Hoje, ao lembrar esses grandes anciãos e anciãs, curvamos o coração em respeito. Porque muito do que permanece vivo entre os Mbya Guarani foi regado por suas mãos cansadas, suas vozes firmes e sua sabedoria paciente.
Que suas memórias sigam caminhando conosco como brisa suave entre as árvores. Que seus nomes sejam sementes. Que seus ensinamentos sejam caminho. E que nós, os que ficamos, tenhamos coragem bastante para honrar suas lutas, guardar suas palavras e seguir adiante, com dignidade, firmeza e esperança.
Pela demarcação das terras indígenas, contra o marco temporal, em defesa da vida e contra todas as formas de violência, devemos semear o Bem Viver.
19 de abril de 2026.
Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre
Ivan Cesar Cima
Cimi Sul – Equipe Norte RS
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
