Inaiê e o fusca amarelo

Carlos Weinman
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Inaiê caminhava pela propriedade do irmão Isaac enquanto pensava em como e quando seguir viagem. Precisava de recursos. Não sabia se iria de ônibus para a região do Contestado, lugar que desejava conhecer e onde talvez encontrasse novos percursos. Enquanto pensava, a conversa com o filho mais novo do irmão a fazia divagar sobre a condição dos viajantes.

Minha tia — disse Roni —, acho que todo ser humano carrega a dádiva do percorrer. Alguns dizem preferir uma vida sem muitas trajetórias, mas isso não contradiz a condição de viajante. Existem muitas formas de viagem. Quem pensa que viajar é apenas sair de um espaço geográfico para outro tem uma visão limitada. Uma das grandes façanhas humanas é percorrer o caminho até o outro, nas relações. Como diria Levinas, é no encontro que nos descobrimos. Tenho apenas dezessete anos, mas eu e meus irmãos vivemos muita coisa difícil A e muitas alegrias. Isso diz quem somos.

Inaiê sorriu.

Você tem metade da minha idade e já fala assim. Vai me superar rápido. A identidade é mesmo algo complexo. Não somos apenas nome, imagem, tempo ou metas. Somos o conjunto das relações que nos atravessam, os muitos “eus” que nos formam.

Concordo — respondeu Roni. — Mas existe uma tendência a reduzir o ser humano a definições simples. Muitos dizem que somos apenas o resultado das escolhas, que o sucesso depende só da vontade. Definições assim podem ser cruéis. Viram quase uma sentença.

Principalmente quando ignoram a condição social — completou Inaiê. — Em sociedades desiguais, é inevitável que muitos nunca alcancem aquilo que chamam de sucesso.

E o próprio conceito de sucesso é questionável — disse Roni. — Há quem tenha bens e viva só e infeliz. Outros têm pouco e são felizes, descobrem muito nas relações.

Nesse momento, Nina, que escutava atentamente, entrou na conversa.

Pensando nisso, lembro dos viajantes da ferrugem dos esperançosos. Eles não enriqueceram, mas encontraram o que buscavam: os irmãos. Encontrar a humanidade não é alcançar um conceito, é viver nas relações — com as pessoas, com os outros seres, com a natureza. O reencontro em São Miguel do Oeste foi só o começo de outras jornadas.

Vocês estudaram filosofia, sociologia, história? — perguntou Inaiê, surpresa.

Não — respondeu Nina. — Só nosso irmão Luriel começou a estudar história, mas teve que parar por causa da doença do nosso pai.

Roni retomou:

Dizem que somos apenas resultado das escolhas, mas isso ignora a coletividade. Meias verdades são perigosas: parecem suficientes, mas escondem mentiras maiores. Eu acreditava nisso até meu pai adoecer.

Faz parte da condição humana — disse Inaiê. — Há coisas que não escolhemos. O problema é tentar universalizar conceitos para algo que envolve tantas relações. Veja: há o indivíduo, a família, a sociedade, a natureza.

Lembrei do que o tio Ulisses falou sobre o positivismo — disse Nina.

Bem lembrado — respondeu Inaiê. — Essa corrente acreditava em um único método científico e defendia neutralidade absoluta.

Ele disse também que o positivismo via isso como estágio final da evolução da sociedade — completou Nina.

E isso é perigoso — disse Roni. — Porque sugere que alguns são mais evoluídos que outros.

Exato — concordou Inaiê. — Assim se justificaram exploração e escravidão. Tornaram certas práticas dogmas, verdades incontestáveis.

Isso é absurdo — disse Nina. — Nem a ciência é única. Cada área exige métodos diferentes.

Nem a ciência está livre de erros quando universaliza respostas — disse Inaiê. — O que nos faz melhores é a capacidade de questionar.

Como esperar que um líder seja perfeito — comentou Roni.

Justamente. Quando transformamos ideias em verdades absolutas, criamos ambientes hostis ao pensamento.

Como na religião — disse Nina. — Quando acham que quem está à frente não pode errar. Já houve mulheres condenadas por bruxaria por homens considerados santos.

A fé não é o problema — respondeu Inaiê. — O problema é o dogmatismo. Não podemos idolatrar líderes. Questionar também é humano.

Roni acrescentou:

Roberto comentou sobre a religião positivista. Falou que religião vem de religare, ligar. Para os positivistas, o Grande Ser seria a humanidade.

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Mas imagine — disse Inaiê — uma ciência que prega neutralidade junto a uma religião que busca uniformizar comportamentos. Isso pode virar um exercício autoritário de poder.

Sim — respondeu Roni. — Muitas vezes invocam Deus ou a humanidade para defender interesses próprios. Quem realmente tem fé não teme o questionamento.

Nesse momento, Luriel chegou suado e avisou que era hora de ir para casa. Ao se aproximarem, Inaiê teve uma surpresa: Kauê a esperava sorridente. Eles se abraçaram.

O que está fazendo aqui? — perguntou ela.

Vim fazer uma entrega — respondeu Kauê. — Combinei com todos para te manterem entretida. Aposto que nem ouviu o fusca.

Apontou para um fusca amarelo.

Eu e Ulisses consertamos. Estava num ferrovelho. Não valia quase nada, mas agora é seu. Só tem uma condição: levar o Roni junto. Ele quer conhecer o Contestado e talvez arrumar trabalho.

As lágrimas brotaram nos olhos de Inaiê.

Então vocês só queriam me distrair? — disse ela, abraçando todos. — Seus engraçadinhos.

Na manhã seguinte, Kauê voltou para o Rio Grande do Sul. Inaiê e Roni partiram rumo ao Contestado no fusca amarelo. Não era moderno, não tinha conforto nem ar‑condicionado, mas carregava sentimentos e expectativas. Talvez por isso parecesse reluzir como ouro, com um brilho capaz de ofuscar carros mais luxuosos.

Era movido pelo significado — pela capacidade de perceber, nas relações, um pouco mais de humanidade.