Inaiê e o fusca amarelo
Inaiê caminhava pela propriedade do irmão Isaac enquanto pensava em como e quando seguir viagem. Precisava de recursos. Não sabia se iria de ônibus para a região do Contestado, lugar que desejava conhecer e onde talvez encontrasse novos percursos. Enquanto pensava, a conversa com o filho mais novo do irmão a fazia divagar sobre a condição dos viajantes.
— Minha tia — disse Roni —, acho que todo ser humano carrega a dádiva do percorrer. Alguns dizem preferir uma vida sem muitas trajetórias, mas isso não contradiz a condição de viajante. Existem muitas formas de viagem. Quem pensa que viajar é apenas sair de um espaço geográfico para outro tem uma visão limitada. Uma das grandes façanhas humanas é percorrer o caminho até o outro, nas relações. Como diria Levinas, é no encontro que nos descobrimos. Tenho apenas dezessete anos, mas eu e meus irmãos vivemos muita coisa difícil A e muitas alegrias. Isso diz quem somos.
Inaiê sorriu.
— Você tem metade da minha idade e já fala assim. Vai me superar rápido. A identidade é mesmo algo complexo. Não somos apenas nome, imagem, tempo ou metas. Somos o conjunto das relações que nos atravessam, os muitos “eus” que nos formam.
— Concordo — respondeu Roni. — Mas existe uma tendência a reduzir o ser humano a definições simples. Muitos dizem que somos apenas o resultado das escolhas, que o sucesso depende só da vontade. Definições assim podem ser cruéis. Viram quase uma sentença.
— Principalmente quando ignoram a condição social — completou Inaiê. — Em sociedades desiguais, é inevitável que muitos nunca alcancem aquilo que chamam de sucesso.
— E o próprio conceito de sucesso é questionável — disse Roni. — Há quem tenha bens e viva só e infeliz. Outros têm pouco e são felizes, descobrem muito nas relações.
Nesse momento, Nina, que escutava atentamente, entrou na conversa.
— Pensando nisso, lembro dos viajantes da ferrugem dos esperançosos. Eles não enriqueceram, mas encontraram o que buscavam: os irmãos. Encontrar a humanidade não é alcançar um conceito, é viver nas relações — com as pessoas, com os outros seres, com a natureza. O reencontro em São Miguel do Oeste foi só o começo de outras jornadas.
— Vocês estudaram filosofia, sociologia, história? — perguntou Inaiê, surpresa.
— Não — respondeu Nina. — Só nosso irmão Luriel começou a estudar história, mas teve que parar por causa da doença do nosso pai.
Roni retomou:
— Dizem que somos apenas resultado das escolhas, mas isso ignora a coletividade. Meias verdades são perigosas: parecem suficientes, mas escondem mentiras maiores. Eu acreditava nisso até meu pai adoecer.
— Faz parte da condição humana — disse Inaiê. — Há coisas que não escolhemos. O problema é tentar universalizar conceitos para algo que envolve tantas relações. Veja: há o indivíduo, a família, a sociedade, a natureza.
— Lembrei do que o tio Ulisses falou sobre o positivismo — disse Nina.
— Bem lembrado — respondeu Inaiê. — Essa corrente acreditava em um único método científico e defendia neutralidade absoluta.
— Ele disse também que o positivismo via isso como estágio final da evolução da sociedade — completou Nina.
— E isso é perigoso — disse Roni. — Porque sugere que alguns são mais evoluídos que outros.
— Exato — concordou Inaiê. — Assim se justificaram exploração e escravidão. Tornaram certas práticas dogmas, verdades incontestáveis.
— Isso é absurdo — disse Nina. — Nem a ciência é única. Cada área exige métodos diferentes.
— Nem a ciência está livre de erros quando universaliza respostas — disse Inaiê. — O que nos faz melhores é a capacidade de questionar.
— Como esperar que um líder seja perfeito — comentou Roni.
— Justamente. Quando transformamos ideias em verdades absolutas, criamos ambientes hostis ao pensamento.
— Como na religião — disse Nina. — Quando acham que quem está à frente não pode errar. Já houve mulheres condenadas por bruxaria por homens considerados santos.
— A fé não é o problema — respondeu Inaiê. — O problema é o dogmatismo. Não podemos idolatrar líderes. Questionar também é humano.
Roni acrescentou:
— Roberto comentou sobre a religião positivista. Falou que religião vem de re‑ligare, ligar. Para os positivistas, o Grande Ser seria a humanidade.
— Mas imagine — disse Inaiê — uma ciência que prega neutralidade junto a uma religião que busca uniformizar comportamentos. Isso pode virar um exercício autoritário de poder.
— Sim — respondeu Roni. — Muitas vezes invocam Deus ou a humanidade para defender interesses próprios. Quem realmente tem fé não teme o questionamento.
Nesse momento, Luriel chegou suado e avisou que era hora de ir para casa. Ao se aproximarem, Inaiê teve uma surpresa: Kauê a esperava sorridente. Eles se abraçaram.
— O que está fazendo aqui? — perguntou ela.
— Vim fazer uma entrega — respondeu Kauê. — Combinei com todos para te manterem entretida. Aposto que nem ouviu o fusca.
Apontou para um fusca amarelo.
— Eu e Ulisses consertamos. Estava num ferro‑velho. Não valia quase nada, mas agora é seu. Só tem uma condição: levar o Roni junto. Ele quer conhecer o Contestado e talvez arrumar trabalho.
As lágrimas brotaram nos olhos de Inaiê.
— Então vocês só queriam me distrair? — disse ela, abraçando todos. — Seus engraçadinhos.
Na manhã seguinte, Kauê voltou para o Rio Grande do Sul. Inaiê e Roni partiram rumo ao Contestado no fusca amarelo. Não era moderno, não tinha conforto nem ar‑condicionado, mas carregava sentimentos e expectativas. Talvez por isso parecesse reluzir como ouro, com um brilho capaz de ofuscar carros mais luxuosos.
Era movido pelo significado — pela capacidade de perceber, nas relações, um pouco mais de humanidade.
Carlos Weinman possui graduação em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Rede Pública do estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: Estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.
