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Data centers e seus impactos no mundo material: território, poder e colonialismo digital

Data centers e seus impactos no mundo material: território, poder e colonialismo digital

Cimi Sul
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Texto organizado por Roberto Liebgott, Cimi Sul-Equipe Porto Alegre

Com o advento das novas tecnologias – especialmente aquelas vinculadas às chamadas “tecnologias da inteligência” – algumas palavras passaram a organizar o imaginário contemporâneo: armazenamento de dados, nuvem, digitalização, inteligência artificial, conectividade, internet.

As relações sociais, culturais, políticas, econômicas e financeiras passam a se estruturar, em larga medida, na virtualidade. A materialidade da vida já não se limita ao território físico: ela se expande para as “nuvens”, operando em espaços e tempos aparentemente inalcançáveis.

A vida humana tornou-se dependente de vínculos que seriam inimagináveis há poucas décadas. Som, imagem e movimento circulam por dispositivos que, ao mesmo tempo em que afastam os corpos, produzem uma sensação de proximidade entre pessoas que jamais se tocaram.

Mas essa leveza é ilusória, pois, para que o mundo digital funcione, para que a “nuvem” exista, é necessário terra, água, energia, minérios, cabos, infraestrutura – e o trabalho concreto de mãos e corpos que sustentam esse novo regime técnico. O virtual repousa, integralmente, sobre o material.

Data centers são estruturas físicas projetadas para abrigar servidores, armazenar informações, processar dados e gerenciar redes. São o coração invisível da vida digital contemporânea, sustentando desde a administração pública até os sistemas financeiros, a medicina, o entretenimento e a circulação global de informações.

Essas estruturas assumem diferentes formas – desde instalações corporativas próprias até grandes complexos de hiperescala operados por corporações globais – mas compartilham uma característica essencial: são intensivas em energia, água e território.

Unidades médias consomem entre 5 e 10 megawatts. Já os grandes data centers podem ultrapassar 100 megawatts, com consumo comparável ao de cidades inteiras. O setor já representa parcela significativa do consumo global de eletricidade e cresce aceleradamente, impulsionado pela expansão da inteligência artificial e da economia digital.

A chamada “economia imaterial”, portanto, revela seu peso concreto: energético, ecológico e territorial.

Longe de serem apenas estruturas técnicas, data centers constituem verdadeiros epicentros de uma materialidade invisibilizada. Organizam fluxos globais de dados, articulam cadeias logísticas complexas e conectam trabalhadores, sistemas automatizados e redes energéticas em escala planetária. Ainda assim, permanecem fora do debate público, protegidos por uma opacidade que encobre seus impactos reais.

Há um paradoxo central: a leveza simbólica da “nuvem” depende de uma infraestrutura pesada, concentradora e profundamente enraizada no território.

Nesse contexto, o discurso da inovação tecnológica opera como ideologia. Tudo o que se vincula ao digital é apresentado como progresso inevitável, ocultando contradições, naturalizando escolhas políticas e invisibilizando relações de poder.

No Brasil, a instalação de data centers por grandes corporações é frequentemente celebrada como sinal de desenvolvimento. Em troca, oferecem-se incentivos fiscais, doações de terras e flexibilização regulatória. Raramente se pergunta quem controla essas infraestruturas, quem captura o valor gerado e quem arca com os custos sociais e ambientais.

A América Latina tem se tornado território estratégico para essa expansão por reunir três condições fundamentais: abundância de recursos naturais, fragilidade regulatória e disponibilidade política para atração de investimentos. O resultado não é soberania digital, mas dependência.

O território fornece energia, água e espaço. Os dados e o valor deles derivado permanecem sob controle externo.

Trata-se de um colonialismo reconfigurado, baseado na extração de dados, infraestrutura e capacidade energética.

Essa leitura crítica encontra respaldo em reportagens recentes publicadas pelo The Intercept Brasil, que vêm investigando a expansão das infraestruturas digitais no país e seus impactos territoriais, sociais e ambientais. Em artigo publicado em 2025, o sociólogo Gabriel Teles analisa os data centers como epicentros de uma materialidade invisibilizada, evidenciando como essas estruturas articulam cadeias logísticas globais e operam sob uma lógica de opacidade que as mantém fora do debate público.

Mais do que formulação teórica, essas análises encontram correspondência em casos concretos. Reportagens do The Intercept Brasil destacam a instalação de grandes empreendimentos de infraestrutura digital no Nordeste brasileiro, com ênfase em projetos no estado do Ceará.

Nesses casos, evidencia-se um conflito estrutural: enquanto comunidades locais enfrentam insegurança hídrica e, em muitos contextos, racionamento de água, grandes corporações recebem acesso privilegiado a esse recurso essencial, além de incentivos fiscais e facilidades institucionais.

De um lado, populações vulnerabilizadas convivem com a escassez. De outro, empreendimentos de alta intensidade hídrica e energética são priorizados em nome do desenvolvimento.

Esse padrão revela uma lógica que pode ser compreendida como necroexportação digital: os fluxos de dados são globais e altamente lucrativos, enquanto os custos ecológicos e sociais permanecem localizados, recaindo sobre territórios específicos.

As investigações apontam ainda:

1- flexibilização de processos de licenciamento ambiental;

2- baixa transparência nos acordos firmados;

3- geração limitada de empregos locais;

4- ausência de avaliação adequada dos impactos cumulativos.

Esse modelo tende a se expandir para outras regiões do país, incluindo o Sul do Brasil.

No caso do Rio Grande do Sul, onde há presença significativa de povos indígenas, como Guarani Mbya e Kaingang, a instalação de data centers pode intensificar pressões históricas sobre os territórios: confinamento, escassez de recursos naturais, degradação ambiental e invisibilização política.

Esses empreendimentos incidem diretamente sobre áreas fundamentais para a reprodução física e cultural dessas comunidades. Ainda assim, a lógica de implantação frequentemente desconsidera o direito à consulta prévia, livre e informada, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Na prática, comunidades indígenas são excluídas dos processos decisórios ou consultadas de forma meramente formal.

A instalação dessas infraestruturas pode implicar pressão sobre recursos hídricos, restrição de acesso ao território, impactos culturais e intensificação de conflitos fundiários, sem qualquer repartição justa de benefícios.

Instituições como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas e o Ministério Público Federal têm papel fundamental na proteção desses direitos, mas frequentemente atuam de forma reativa, diante de projetos já avançados.

Sem estudos adequados, sem consulta efetiva e sem transparência, consolida-se a repetição de um padrão histórico: territórios indígenas transformados em zonas de sacrifício.

A expansão dos data centers transforma ecossistemas em áreas de exploração intensiva. Consomem grandes volumes de água, pressionam sistemas energéticos e reorganizam o uso do território.

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Os fluxos digitais são globais, mas os impactos são locais.

Nesse contexto, essas infraestruturas podem ser compreendidas como tecnologias de desgaste contínuo: deslocam recursos vitais, aprofundam desigualdades e invisibilizam populações afetadas, sob a narrativa do progresso.

Há, portanto, uma desigualdade estrutural entre benefícios e custos. Empresas recebem incentivos, infraestrutura e acesso a recursos naturais. Comunidades locais — especialmente povos indígenas — absorvem os impactos.

As compensações são limitadas. A regulação é frágil e o Estado, mais uma vez, se subordina à lógica do capital – agora travestido de inovação digital.

O que se apresenta como futuro revela, em grande medida, a continuidade de velhas formas de exploração, reorganizadas sob a forma do colonialismo de dados.

Referências

The Intercept Brasil. Reportagens sobre data centers e impactos socioambientais (2024–2025).

Organização Internacional do Trabalho. Convenção nº 169 sobre Povos Indígenas e Tribais.

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 231 e 232).

Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI).

Ministério Público Federal (MPF).

Teles, Gabriel (2025).

Couldry, N.; Mejias, U. The Costs of Connection.

Ricaurte, P. Colonialidade dos dados e poder.

Colonialismo de Dados (coletânea).

Instituto Socioambiental (ISA).

Conselho Indigenista Missionário (CIMI).