III Encontro de Mbo’ehara Kuera reforça a luta por educação escolar indígena específica e diferenciada no Paraná

Claudia Weinman
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Por Osmarina de Oliveira

Cimi Sul – Equipe Foz do Iguaçu.

 

Entre os dias 16 e 18 de julho de 2026, foi realizado o III Encontro de Mbo’ehara Kuera, Lideranças, Chamõi, Charyi, Juventude e Acadêmicos Guarani Kuera sobre Educação Escolar. O evento reuniu 170 Guarani das Terras Indígenas Guasu Guavirá e Tekoha Ocoy/Jacutinga do Oeste do Paraná, da TI Rio do Areia (Sudoeste), além de representantes dos acadêmicos Guarani da Argentina e do Paraguai do Curso de Licenciatura Intercultural Guarani no território Yvy Mbyte.

A abertura do encontro contou com a presença da reitoria da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), representada pela reitora Diana Araujo Pereira, pelo vice-reitor Rodne de Oliveira Lima e pela pró-reitora adjunta de Graduação, Ana Rita Uhle. O defensor público do Paraná, David Alexandre de Santana Bezerra; Merryan e Celso Japoty Alves, da CTL de Guaíra; Osmarina de Oliveira, pelo Cimi; Welita Barbosa da Silva, do LAET/MPI-Unila; e o professor Clovis Antonio Brighenti, coordenador do LAET, do Saberes Indígenas na Escola e da Licenciatura Intercultural Guarani, acompanharam todos os dias do evento, que foram marcados por rezas e cantos tradicionais para honrar e manter viva a cultura indígena.

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Foto: Osmarina de Oliveira Cimi Sul/Equipe Foz do Iguaçu.

Durante os três dias de debates, os participantes reafirmaram a urgência de uma educação escolar indígena que seja específica, diferenciada, comunitária e territorializada.

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Foto: Osmarina de Oliveira Cimi Sul/Equipe Foz do Iguaçu.

Ao final, foi lançado o manifesto do encontro, que traz severas denúncias contra os desafios enfrentados pelas comunidades e destaca que, para o povo Guarani, o processo educativo vai muito além da sala de aula tradicional: ele visa formar a pessoa em sua totalidade, integrando o corpo (tete), a alma (anga) e o espírito (ñe’ẽ). Educar significa ensinar a viver em harmonia com a comunidade, com a natureza e com o mundo espiritual.

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Foto: Osmarina de Oliveira Cimi Sul/Equipe Foz do Iguaçu.

O sistema político não pode mais continuar fingindo que não conhece a especificidade da diversidade existente no estado do Paraná. Está na hora de aceitar e reconhecer a forma de educação que queremos. Para o povo Guarani, o território (tete) é a primeira escola, a natureza (anga) é a sala de aula e a comunidade (ñe’ẽ Kuera) é a grande educadora. A única forma correta de repassar esses conhecimentos é tendo escolas estruturadas e diferenciadas dentro da Tekoha — o lugar onde se é o que é.

Na sequência, manifesto das lideranças presentes no encontro.

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Foto: Osmarina de Oliveira Cimi Sul/Equipe Foz do Iguaçu.

III ENCONTRO DE MBO’EHARA KUERA, LIDERANÇAS, CHAMÕI, CHARYI, JUVENTUDE E ACADÊMICOS GUARANI KUERA SOBRE EDUCAÇÃO ESCOLAR

“Não à terceirização da educação! Invocamos nosso modo de ser: namoheñoi ñandereko!”

Com manifestações de protesto, de reafirmação, de reivindicação, com rezas, cantos e muita força espiritual de nossos ancestrais e nossas tradições, Mbo’ehara Kuera (professores) e lideranças políticas e religiosas, jovens e crianças Guarani das regiões do Paraná — com participação de professores da Argentina e Paraguai —, nos reunimos para dialogar sobre o universo da Educação Escolar Guarani. O encontro aconteceu nas dependências da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu – Paraná, de 16 a 18 de julho de 2026.

Reafirmamos que a educação escolar é parte de nosso território — escola e território são inseparáveis —, por isso consideramos esse encontro uma retomada. Retomada de nosso chão sagrado, retomada da universidade, retomada de nossa língua, retomada de nossas mais profundas expressões culturais (ñandereko) e de toda nossa resistência milenar.

Para nosso povo Guarani, a educação diferenciada significa que a escola deve caminhar junto com a comunidade, e não separar a criança de sua cultura. O conhecimento dos anciãos, das mulheres, das lideranças, dos rezadores, da terra, das águas, das sementes, das plantas e do território também é conhecimento e deve fazer parte da aprendizagem.

Para o povo Guarani, educar é formar a pessoa por inteiro: corpo (tete), alma (anga) e espírito (ñe’ẽ). É ensinar a viver em equilíbrio com o outro, com a comunidade, com a natureza e com o mundo espiritual.

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A educação diferenciada é o caminho pelo qual queremos que nossas crianças caminhem para aprender e conhecer o mundo sem deixar de conhecer a si mesmas, fortalecendo a língua, que é o nosso próprio espírito. Por isso, falamos que a nossa existência e a existência de tudo o que somos são uma só; somos inseparáveis.

O sistema político não pode mais continuar fingindo que não conhece a especificidade da diversidade existente no estado do Paraná. Está na hora de aceitar e reconhecer a forma de educação que queremos. Pois, para nós, o território (tete) é a primeira escola; a natureza (anga) é a sala de aula; a comunidade (ñe’ẽ Kuera) é a grande educadora. A única forma correta de repassar esses conhecimentos é tendo escolas estruturadas e diferenciadas dentro da Tekoha = lugar onde se é o que é.

Após uma leitura atenta do contexto vivenciado na educação básica e superior, expressados em palavras e documentos, destacamos os desafios que mais impactam nossas vidas:

  • Escolas externas e traumas: Em vários de nossos Tekoha Kuera, a educação escolar deixou de ser um lugar prazeroso, transformando-se em um lugar de trauma e medo. São os Tekoha Kuera em que não há escola, onde nossas crianças, a partir dos 4 anos, precisam estudar em escolas não indígenas. Sendo monolíngues em Guarani, passam brutalmente a ser alfabetizadas em português. A escola se transforma em um ambiente hostil, especialmente quando nossas crianças são impedidas de falar a língua, impedidas de ir ao banheiro ou sofrem discriminação por estarem com os calçados manchados de terra.
  • Falta de estrutura física: Há apenas seis escolas na região. Na maioria das comunidades, os pequenos espaços escolares que existem nos Tekoha foram feitos com o esforço de nossas comunidades, sem contar com verba pública. Já não oferecem condições dignas para estudar. São espaços para estudo de contraturno, que se converteram em um pequeno reforço na língua de dois a três dias na semana.
  • Carência de professores indígenas: Apenas no oeste do Paraná necessitamos, em 2026, de cerca de 100 novos professores; além disso, cargos de direção de nossas escolas são ocupados por não Guarani. Para 2027, é provável que haja a necessidade de mais de 150 professores.
  • Insegurança institucional: A terceirização e a não realização de concurso público geram insegurança e dificuldades de planejar a médio e longo prazo nossos planos de ação escolar.
  • Evasão escolar: Poucos jovens conseguem concluir o ensino médio porque, sem terra, necessitam trabalhar fora dos Tekoha Kuera desde muito cedo para sustentar a família.

Diante do contexto de desrespeito às normativas legais e ao ñandereko, expressamos aqui demandas que precisam ser resolvidas para seguirmos sonhando com a escola Guarani:

  1. a) Ao Estado do PR, responsável pela oferta da Educação Básica:
  • Queremos que as escolas de contraturno sejam transformadas em escolas regulares para o Ensino Fundamental I. Cada Tekoha Kuera deve ter uma escola, como está garantido no Plano Nacional de Educação 2026;
  • Precisamos de prédios escolares de acordo com o ñandereko, e não como ocorre hoje, com “padronização”;
  • Pedimos o fim da terceirização e que seja garantida a realização de concurso público diferenciado para nossos professores indígenas;
  • Queremos construir um PPP (Projeto Político-Pedagógico) Guarani, porque o que nos é oferecido não atende às nossas realidades;
  • Que nos Núcleos Regionais de Educação sejam garantidas vagas para gestores Guarani;
  • Que sejam contratados Chamõi e Charyi Kuera para as escolas como formadores tradicionais da nossa cultura.
  1. b) Ao Ministério da Educação:
  • Que implemente de fato a Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais;
  • Que invista mais verbas no financiamento da educação básica e da educação superior e, ao mesmo tempo, faça cumprir as leis educacionais;
  • Que oferte mais apoio financeiro às Instituições de Ensino Superior para a criação de cursos específicos na pedagogia da alternância;
  • Que financie a construção de centros de formação nos Tekoha Kuera para formação superior e técnica.
  1. c) Às Instituições de Ensino Superior (IES):
  • Ofertar novos cursos de formação de professores, em especial pedagogias e licenciaturas. Queremos cursos específicos em que nossas línguas, o ñandereko e nosso tempo sejam valorizados;
  • Que sejam contratados Chamõi e Charyi Kuera como formadores tradicionais da nossa cultura;
  • Ofertar mais vagas nos cursos regulares das IES, com bolsas de estudo e apoio pedagógico;
  • Investir mais nas formações de docentes, como o Programa Ação Saberes Indígenas na Escola;
  • Que todas as ações de extensão, sempre bem-vindas, passem primeiro pelo aceite de nossas lideranças;
  • Que nos concursos públicos para docentes sejam criadas vagas específicas para professores Guarani;
  • Necessitamos da oferta de ensino técnico em diferentes áreas do conhecimento para contemplar nossa juventude, abordando temas como saúde, artesanato, carpintaria, agricultura, tecnologias, informática, entre outros.

Por fim, no contexto da nossa retomada, reafirmamos que a escola é um direito e deve ser feita do nosso jeito, em nossos territórios e com base no ñandereko. Sem tekoha não há tekó. Sem território não há escola Guarani e não há vida.

 

Foz do Iguaçu, 18 de julho de 2026.