Inaiê: o despertar dos estranhos no mundo
A ação é própria do viajante e, de algum modo, todos nós o somos. Vivemos em trânsito, atravessando os dias como quem percorre estradas que nem sempre escolheu. A vida é passagem, e não há como furtar-se ao seu percurso: seguimos, ainda que hesitantes, ainda que sem mapas, bússolas ou qualquer certeza sobre o destino.
Por vezes, desejamos tornar o caminho mais brando para nossas crianças, adolescentes e jovens, como se fosse possível poupá-los dos tropeços, suavizar as quedas ou aparar as arestas do mundo. Contudo, há um equívoco nessa tentativa. Cair também faz parte do verbo existir. É no encontro com os limites, com a frustração e com a própria fragilidade que o ser humano aprende a reconhecer a si mesmo. Ninguém se prepara para a travessia sem atravessar; ninguém amadurece sem experimentar o erro, o risco e a incerteza.
Talvez ajamos assim porque carregamos a impressão de que nossas próprias dores poderiam ter sido menores — e, provavelmente, muitas delas poderiam mesmo. Ainda assim, os sofrimentos que atravessamos dizem muito sobre quem nos tornamos. A dor, assim como a paixão, o prazer e a alegria, integra a experiência de viver. É através dela que, muitas vezes, somos levados a compreender o que desconhecíamos sobre nós mesmos e, pouco a pouco, a nos transformar.
Apesar disso, não são poucos os viajantes que partem embalados por ilusões. Acreditam que o caminho se revelará apenas em suavidade, como se bastasse entregar-se ao presente ou repetir fórmulas prontas sobre sucesso e realização pessoal. Mas aqueles que se lançam de peito aberto e olhos fechados correm o risco de descobrir, ao primeiro tropeço, que a vida não se curva às expectativas. E, quando a realidade rompe o encanto, a queda pode parecer maior do que realmente é.
Entre esses viajantes estava Inaiê. Ela ousara lançar-se numa jornada em busca de si mesma, mas a queda revelou-se inevitável. O problema não era ter caído; era não estar preparada para o impacto.
Em algum lugar entre o sono e a consciência, uma voz insistentemente começou a ressoar dentro dela. Irritante, incômoda, impossível de ignorar. Seu corpo permanecia imóvel, pesado, como se estivesse aprisionado à própria inércia. Abrir os olhos exigia um esforço desmedido; abandonar aquela flacidez parecia uma tarefa além de suas forças.
Enquanto lutava para despertar, sua mente vagava pelas advertências que tantas vezes ouvira. Recordava-se das pessoas que temiam o despertar do pensamento, dos alertas sobre os perigos de caminhar sozinho e dos riscos de quem decide alçar voos sem companhia. Ainda assim, algo dentro dela jamais aceitara permanecer parada. Sua natureza a impelia ao movimento. Viajar, para Inaiê, sempre fora mais do que percorrer caminhos: era a própria maneira de existir.
Todo caminho carrega incertezas. Não existe preparo capaz de oferecer garantias contra as quedas, nem experiência suficiente para eliminar os perigos da jornada. O máximo que se pode alcançar é a disposição para enfrentá-los quando surgirem. As dores do percurso não representam um desvio da viagem; são parte dela. Alargam horizontes, revelam limites e transformam quem as atravessa.
Paradoxalmente, os maiores obstáculos raramente se encontram na estrada. Habitam a interioridade do viajante. O medo, a insegurança, a dúvida e a descrença costumam erguer barreiras mais difíceis de transpor do que qualquer montanha ou abismo encontrado pelo caminho. Em casos extremos, podem levá-lo à estagnação, contrariando aquilo que lhe é mais essencial: o impulso de seguir adiante.
Por isso, permitir que o medo paralise a existência é quase como recear o próprio ato de respirar. Viver implica aceitar a possibilidade do erro, do fracasso e da queda. Tal condição não representa uma deficiência do humano, mas um traço inseparável de sua natureza. Somos seres em travessia, incessantemente lançados para além do lugar onde estamos.
Quando deixamos de caminhar, algo em nós também deixa de existir. Há quem passe os dias respirando, cumprindo rotinas e preservando a própria sobrevivência, mas evitando qualquer movimento que possa despertar inquietações mais profundas. Nesses casos, a vida reduz-se à conservação de si mesma. A busca pelo sentido, pela própria essência ou pela compreensão da condição humana cede lugar à segurança da permanência. E, pouco a pouco, o que era existência transforma-se apenas em sobrevivência.
A queda de Inaiê fora turbulenta. Tempestades ergueram-se diante dela e obscureceram os caminhos que antes julgava reconhecer. Sua alma encontrava-se atormentada por antigas inquietações, sobretudo pelas incertezas acerca de sua própria identidade. Afinal, ela pertencia ao mundo dos estranhos.
Não havia escolhido essa condição. Desde muito cedo, aprendera a conviver com o deslocamento. Mais do que uma experiência subjetiva, o estranhamento constituía uma realidade frequentemente imposta à sua existência, como se sua maneira de perceber o mundo a colocasse continuamente diante das fronteiras daquilo que os outros reconheciam como normal, aceitável ou compreensível. Antes mesmo de buscar compreender quem era, já havia sido apresentada ao lugar dos estranhos. Não porque desejasse ocupar tal posição, mas porque aqueles ao seu redor pareciam incapazes de enxergar, em sua diferença, outra coisa além da própria estranheza.
Com o tempo, passou a carregar esse peso para dentro de si. As dúvidas e os medos que cultivava alimentaram sua queda e, agora, repousavam sobre seu espírito como correntes invisíveis. Contudo, permanecia uma exigência fundamental: despertar. Não apenas abrir os olhos para o mundo, mas despertar para si mesma.
Enquanto permanecia suspensa entre a inconsciência e a lucidez, uma voz insistente ecoava em seu subconsciente. Chamava-a de volta. Havia nela uma serenidade inquietante, uma convocação silenciosa para que não abandonasse a travessia e não renunciasse à própria existência.
Pouco a pouco, a voz fazia emergir uma compreensão há muito encoberta pelos temores. O ser humano não encontra sua força apenas na interioridade. Há algo que se revela no encontro com os semelhantes. São as relações que marcam os caminhos percorridos, atribuem sentido às memórias e sustentam a lucidez quando as tempestades da existência ameaçam obscurecer o horizonte. Talvez por isso a voz insistisse tanto.
Já era tempo de Inaiê deixar de perceber a si mesma apenas como mais uma habitante do mundo dos estranhos. Precisava compreender a própria condição de estranheza. Afinal, ser estranho não significava estar fora da humanidade, mas confrontar-se com uma das suas dimensões mais profundas. O estranho emerge quando as certezas vacilam, quando as identidades rígidas se desfazem e quando somos obrigados a reconhecer aquilo que em nós permanece desconhecido.
Talvez o mundo dos estranhos não fosse um lugar reservado aos diferentes, mas um território existencial compartilhado por todos aqueles que ousam buscar a si mesmos. Poucos, entretanto, estavam dispostos a admitir essa condição. Muitos preferiam refugiar-se nas aparências da normalidade, como se fosse possível atravessar a vida sem se deparar com o mistério da própria existência.
Foi então que uma possibilidade começou a delinear-se diante dela. Talvez sua essência não estivesse em superar a condição de estranha, tampouco em fugir dela. Talvez residisse justamente em compreendê-la. Pois é somente quando se aceita o desconhecido que habita em si mesmo que se torna possível reconhecer, nos outros, algo que também nos pertence.
E, pela primeira vez desde a queda, Inaiê sentiu que o despertar podia estar próximo. Não porque tivesse encontrado respostas, mas porque começava, enfim, a formular as perguntas certas.
Foi então que Inaiê despertou.
Lentamente, abriu os olhos e percebeu que não estava sozinha. A luz parecia diferente, como se o mundo ainda estivesse retornando ao lugar após a tempestade. À sua frente, um jovem a observava em silêncio.
A queda ainda pesava em seu corpo. Quando tentou erguer-se, as pernas vacilaram e a fraqueza a obrigou a parar. Uma mão foi estendida em sua direção. Por instinto, recusou-a. Não era orgulho. Talvez fosse hábito.
Passara boa parte da vida acreditando que os pesos da travessia lhe pertenciam exclusivamente. Acostumara-se a caminhar carregando sozinha suas perguntas, seus medos e suas diferenças. O jovem não recolheu a mão. Permaneceu onde estava.
— Não precisa caminhar sozinha.
Inaiê nada respondeu.
O vento agitava a vegetação ao redor. Por um instante, tudo pareceu suspenso.
— Você não é a única estranha neste mundo.
Aquelas palavras a atingiram com mais força do que imaginava. Pareciam a continuação da voz que a havia chamado de volta. Ela ergueu os olhos.
— Também pertenço ao mundo dos estranhos — disse ele. — Durante muito tempo pensei que isso fosse uma condenação. Hoje acredito que foi um convite.
Inaiê franziu a testa.
— Um convite?
— Sim, um convite para olhar além das aparências.
O jovem sentou-se sobre uma pedra próxima.
— Talvez a estranheza exista porque as pessoas se acostumaram demais com as próprias certezas. Tudo aquilo que escapa às explicações conhecidas costuma ser visto como estranho.
Fez uma breve pausa.
— No entanto, quem disse que compreender a vida significa eliminar seus mistérios?
A pergunta permaneceu entre eles. O horizonte ainda guardava vestígios da tempestade. Nuvens moviam-se lentamente, permitindo que a luz atravessasse pequenas frestas do céu.
— Os antigos diziam que navegar é preciso; viver não é preciso — continuou ele. — Sempre gostei dessa frase. Não porque fale sobre mares, mas porque fala sobre coragem.
Inaiê escutava atentamente.
— Navegar exige abandonar a segurança da terra firme. Exige confiar em caminhos que ainda não existem sob os pés. Talvez viver seja parecido. Talvez ninguém descubra quem é sem aceitar perder algumas certezas durante a viagem.
Ela permaneceu em silêncio.
Havia algo naquelas palavras que lhe parecia familiar, como se sempre as tivesse sabido sem jamais conseguir formulá-las.
— Durante muito tempo — prosseguiu o jovem — disseram-nos que a diferença é um problema. Que ser estranho significa estar fora de lugar. Mas comecei a pensar que acontece exatamente o contrário.
Seus olhos voltaram-se para o horizonte.
— Já observou uma orquestra?
Inaiê balançou a cabeça afirmativamente.
— Nenhuma música se faz com uma única nota. Se todos os instrumentos produzissem o mesmo som, não haveria melodia. Haveria apenas repetição.
O vento trouxe consigo o perfume úmido da terra.
— Talvez a humanidade seja assim. Uma grande composição. Cada pessoa carrega um tom, um ritmo, uma forma de existir. O que chamamos de estranheza pode ser apenas a beleza da diferença quando ainda não aprendemos a escutá-la.
Inaiê sentiu algo se mover dentro de si. Pela primeira vez em muito tempo, o mundo dos estranhos não lhe pareceu um lugar de exílio. Talvez fosse um lugar de encontro. Talvez todos os viajantes, em algum momento, passassem por ele. O jovem levantou-se e estendeu novamente a mão. Desta vez, ela a aceitou.
— Meu nome é Ulisses.
Inaiê levantou-se lentamente. Ao encará-lo, teve a estranha sensação de que aquele encontro não marcava o fim de sua queda. Marcava o início de seu despertar.
Carlos Weinman possui graduação em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Rede Pública do estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: Estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.
