Fogo, brasa, fumaça e cheiro de carne assada
O vinte de setembro, orgulho gaúcho, é tradição que se alinha à cultura de uma região celebrada pela mística da força, da coragem e do brio.
Há, todavia, uma outra versão da história abafada por trás da fumaça dos churrascos, das bandeiras e dos discursos. Uma história sangrenta, na qual boa parte do sangue derramado não era dos homens livres que aparecem como heróis. Era sangue de homens negros escravizados e obrigados a marcharem para as frentes de batalhas que não eram suas.
Eram corpos negros escravizados, tratados como força de combate, como mercadoria, como vidas que podiam ser sacrificadas em nome de interesses que pertenciam a outros.
A força, a coragem e o brio tão celebrados não estavam nos patrões, nem nos comandantes das guerras impostas. Muitos deles, protegidos pelo poder e pelo conforto, assistiam tudo à distância, enquanto os homens negros eram enviados para o campo de batalha, onde tombavam, feridos, despedaçados e mortos.
Há uma pergunta incômoda que a celebração quase nunca faz: quem derramou o sangue que construiu essa memória?
Porque celebrar vitórias às custas do sangue alheio não é apenas uma ilusão. É uma maneira de manipular a história, escolhendo os heróis, apagando os vencidos e silenciando aqueles que foram obrigados a lutar.
A história, porém, não se apaga com bandeiras, discursos ou churrascadas.
Ela permanece nos corpos negros dos homens escravizados que foram transformados em soldados. Permanece na memória daqueles que morreram sem escolher a guerra. Permanece nas vidas sacrificadas para que outros pudessem contar a história como se a coragem fosse deles.
Ao final, depois das décadas, talvez reste apenas aquilo que a festividade gosta de demonstrar:
o fogo, a brasa,
a fumaça
e o cheiro de carne assada.
20 de setembro de 2026.
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
