CONJUNTURA POLÍTICA: o extremismo de direita em refluxo?
A conjuntura política mundial é marcada por disputas entre diferentes projetos de sociedade, em movimentos históricos de avanço, resistência e refluxo. Depois de um período de forte ascensão da extrema direita, começam a surgir sinais de desgaste desse projeto político e de resistência às suas práticas autoritárias. Abrem-se, assim, possibilidades para a retomada de perspectivas democráticas e progressistas. Entretanto, esse movimento não representa, por si só, a superação do extremismo nem das estruturas econômicas e sociais que o alimentam. Para avançar nessa direção, é necessário enfrentar as desigualdades, a concentração da riqueza e a exploração dos povos e da natureza. É preciso defender os territórios e os bens comuns e reafirmar o direito de todos os povos à vida, à dignidade e ao futuro.
A humanidade vive ciclos históricos. O capitalismo se movimenta por ondas, entre fluxos e refluxos, períodos de expansão, ajustes e crises. São movimentos marcados por disputas de poder, interesses econômicos e diferentes projetos de sociedade.
No período posterior à Segunda Guerra Mundial, a ordem mundial foi estruturada pela polarização entre Estados Unidos e União Soviética, dividindo o mundo entre os blocos capitalista e socialista. A Guerra Fria tornou-se o principal eixo das disputas políticas, econômicas e militares.
A partir do final dos anos 1960 e, sobretudo, nas décadas seguintes, ganhou força a reorganização do capitalismo em sua vertente neoliberal. Sob o discurso da modernização e da liberdade econômica, avançaram a desregulamentação, a privatização, a concentração de riquezas e novas formas de exploração do trabalho e dos bens naturais. Na América Latina, esse processo foi precedido e acompanhado por ditaduras militares, frequentemente sustentadas pelos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.
Nas décadas seguintes, governos social-democratas e liberais aprofundaram a globalização econômica, ampliando a circulação do capital e a integração dos mercados, sem romper com as estruturas fundamentais de exploração e concentração da riqueza.
Na sequência, especialmente no início do século XXI, ganharam espaço governos progressistas, com diferentes graus de compromisso com projetos desenvolvimentistas, inclusão social, soberania nacional e redução das desigualdades. As transformações tecnológicas também passaram a ocupar lugar central na disputa econômica e geopolítica mundial.
Mais recentemente, assistimos à ascensão de uma poderosa onda de extrema direita. Apropriando-se das redes sociais, dos discursos de ódio, do ressentimento social e das pautas conservadoras dos costumes, esse movimento conquistou governos e ampliou sua influência em diferentes partes do mundo. Sob discursos nacionalistas e autoritários, aprofundou a intolerância, a violência política, a perseguição a grupos sociais e a destruição ambiental. Ao mesmo tempo, intensificaram-se as guerras, as disputas territoriais e a competição pelo controle de recursos estratégicos, como petróleo, minerais e fontes de energia.
Entretanto, essa onda também começa a apresentar sinais de desgaste. As contradições econômicas, o agravamento das desigualdades, os conflitos internacionais e a incapacidade de responder às necessidades concretas das populações expõem os limites desses projetos. Em diferentes países, surgem sinais de resistência e de retomada de perspectivas políticas comprometidas com a democracia, os direitos sociais e a justiça.
Nesse movimento, a eleição brasileira de 2026 ganha significado que ultrapassa as fronteiras nacionais. A reeleição de Lula, em meio a uma conjuntura internacional marcada pelo avanço de forças conservadoras e autoritárias, representa um sinal importante de resistência democrática e de afirmação de alternativas políticas progressistas. O resultado repercutiu entre lideranças e movimentos de diferentes partes do mundo, especialmente na América Latina, na Europa e no Sul Global. O Brasil, por sua dimensão econômica, política e diplomática, volta a ocupar um lugar relevante nessa disputa, demonstrando que o avanço da extrema direita não é inevitável e que existem forças sociais capazes de construir caminhos alternativos.
Estamos, portanto, diante de um possível refluxo do extremismo de direita. Mas é preciso compreender que o enfraquecimento eleitoral ou político desses governos não significa, por si só, a superação das estruturas que alimentam a pobreza, a concentração de riquezas e a exploração dos povos e da natureza.
Nesse cenário, ganha centralidade a disputa em torno dos territórios e dos bens comuns da humanidade. A expansão do agronegócio, da mineração, dos grandes empreendimentos energéticos e da exploração dos recursos naturais aprofunda a pressão sobre florestas, rios, terras e comunidades. Os povos indígenas, quilombolas, camponeses e demais comunidades tradicionais estão entre os que mais sofrem as consequências desse modelo, mas também estão entre os principais sujeitos de resistência. Suas lutas não dizem respeito apenas à defesa de territórios e direitos específicos: expressam outras formas de compreender a vida, a relação entre os seres humanos e a natureza e a responsabilidade com as gerações futuras.
É nesse contexto que se torna urgente reafirmar o cuidado com a Casa Comum, em contraposição à exploração desenfreada da terra e à transformação de todas as formas de vida em mercadoria.
A justiça social não será possível enquanto a riqueza de poucos continuar sendo produzida à custa da destruição dos ecossistemas, do deslocamento dos povos e da negação de seus modos de vida. A defesa dos territórios, da biodiversidade, das águas e das florestas precisa fazer parte de qualquer projeto democrático e popular que pretenda construir um futuro com dignidade, justiça e equilíbrio socioambiental.
O desafio que se coloca é maior do que derrotar o extremismo. É construir alternativas capazes de enfrentar as raízes econômicas, sociais e ambientais das desigualdades, afirmando a democracia, a soberania dos povos, a justiça social e o direito à vida e aos territórios.
06 de novembro de 2026.
Roberto Liebgott
Cimi Sul – Equipe Porto Alegre
Ivan Cesar Cima
Cimi Sul – Equipe Norte RS
Roberto Antônio Liebgott é missionário do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, atuando na região Sul do Brasil.
