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“Higienização” nas ruas de Chapecó continua e ataca históricas conquistas da Reforma Psiquiátrica no Brasil

“Higienização” nas ruas de Chapecó continua e ataca históricas conquistas da Reforma Psiquiátrica no Brasil

Claudia Weinman
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Os versos descritos abaixo são do psicólogo, apoiador dos movimentos sociais, Marcelo Bonadeu. Referem-se hoje ao que acontece no município de Chapecó, no Oeste Catarinense, a partir das ações de higienização da cidade que estão sendo promovidas pelo prefeito João Rodrigues, que tem utilizado da prática de internação compulsória para os dependentes químicos.

Para Bonadeu: “Num primeiro momento pode parecer interessante o ato de proporcionar outra opção sem ser os perigos da rua, chuva, frio, violência. Contudo, o modo como está sendo realizado é no mínimo ridículo. É uma tentativa de maquiar o fracasso desse governo que resulta em tantos despejos que ocorrem em todo o país. Pessoas em situação de rua são efeitos da falta de políticas públicas, do desemprego, do aumento do custo de vida”, disse.

O psicólogo direciona algumas ações que respeitam os direitos humanos e não violam a vida. “É necessário investir na arte, investir na cultura, na educação, na vida, para que as pessoas tenham consistência no alimentar os seus sonhos e por efeito não se colocarem nos riscos, na precariedade que a rua oferece. Pois uma vez que a pessoa se familiariza com a rua, esse modo de vida passa a lhe fazer parte como perspectiva, por mais que ali tenha riscos, sofrimentos, aquilo faz parte de si. Não é que ela não pode mais sair da rua. Mas ela precisa ser ouvida, que ajuda ela precisa? O que ela precisa? Como o estado e a sociedade podem lhe ser uma força aliada? Pois não soa incoerente cobrar autonomia e decidir pela pessoa?”, refletiu.

 

Em suas palavras, Bonadeu fala em versos, sobre o tema:

Sou morador de rua, só da rua, sou da rua.
Para muitos, sou apenas mais um mendigo,
Pobre desses que não reconhecem minha singularidade
que nunca conversaram comigo, nunca me ouviram
Pobres desses que acham que eu deveria estar preso num lar,
pois pensam ser isso o melhor para mim.

Eu tenho tanta dó desses que segundo seus próprios critérios
se imaginam sendo pessoas do bem,
pelo fato de estarem preocupados
quando, o que os motiva é o desconforto que a minha presença lhes causa.
Pobre desses que nunca pararam para refletir sua vida,
que nunca fizeram um poema, uma melodia em lágrima
que nunca ouviram os seus próprios sentimentos ao de me verem.
Que não fazem um bom uso do meu exemplo
Eu nem sempre quero casa, nem sempre quero dinheiro ou roupas.
Agora eu nunca quero compaixão
você aí, que sente pena de mim,
você teria condições de suportar, de viver como eu vivo?
Eu não quero compaixão, o que quero é uma paixão“.

 

Prefeito João Rodrigues chama de “ordinários” quem se opõe a sua prática de higienização

No dia 29 de março, A Fronte – Jornalismo das Gentes publicou uma matéria com base em uma nota de repúdio divulgada pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua / Programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais, contra as práticas higienistas do prefeito da cidade de Chapecó.

Um dos trechos da nota, inclusive, a equipe do Observatório explica que:

É uma ação contrária às históricas conquistas obtidas com a Reforma Psiquiátrica em nosso país e às melhores práticas debatidas em vários países do mundo, voltadas ao fortalecimento de políticas públicas estruturantes, como o Housing First ou o Moradia Primeiro, eixo norteador de articulação entre diversos setores, como a saúde, a assistência social, o trabalho, a educação, a cultura, o esporte, na luta pela efetivação dos direitos das pessoas em situação de rua”.

 

Internação compulsória em Chapecó/SC fere conquistas históricas e viola direitos humanos  

 

Neste final de semana, João Rodrigues divulgou um vídeo  com palavras ofensivas ao conteúdo publicado pelo Observatório. “Recebi uma publicação em rede social, da Universidade Federal de Minas Gerais, de um instituto qualquer, esquerdalha, é um negócio que enoja, protestando e colocando publicamente de que o prefeito de Chapecó está fazendo uma faxina e dizendo que isso eu não posso fazer. Ordinários”.

No mesmo vídeo, o prefeito mostra-se incomodado com a apresentação no festival que ocorreu ainda no mês de março, o Lollapalooza, onde Pabllo Vittar ergueu a bandeira do ex-presidente Lula. “Independente da sua sexualidade, o problema é dele, ele faz o que ele quiser com os órgãos que ele tem, é um problema dele. Agora, quando ele pegue a bandeira do Lula diante de um público, estampa como se fosse um mito, é esse o país que vamos querer para o futuro? Degradação da família, sexo livre”, disse João Rodrigues, aliado de Jair Bolsonaro.

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Você pode ler a nota na íntegra, divulgada pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua / Programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais, clicando aqui.

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